Caminho sem fim: o drama vivido pelos refugiados.

Luis Coimbra

Todos os dias entram pela nossa casa a dentro imagens que jamais nos poderão deixar indiferentes.
A imagem de uma criança morta nas areias de uma qualquer praia na Turquia ou de uma mulher exausta pelo caminho de sofrimento percorrido, com um recém-nascido ao colo ou ainda de homens, mulheres e crianças agarradas a uma boia salva vidas, algures no meio do oceano, desperta em nós sentimentos de revolta e de solidariedade, impelindo-nos para um dever de agir que a todos nós obriga.
Não podemos cruzar os braços e ignorar os relatos daqueles homens, mulheres e crianças, nascidos nos destroços da guerra, em que tudo o que conhecem da vida é a luta pela sobrevivência.
Se a sua tormenta nos deixar indiferentes, é sinal que deixámos de ser humanos e passámos a ser máquinas, desprovidos de sentimentos de ajuda e de apoio ao nosso semelhante, tornando-nos seres individualistas, solitários e egoístas.
Não parece ser essa a nossa tradição humanista.
É hoje evidente que a crise migratória que a União Europeia vive, será seguramente, o maior desafio que a Europa enfrentará nos próximos anos.
E a forma como a União Europeia irá responder a esta crise, será determinante no seu futuro.
Veremos se prevalece a dimensão humana e os valores fundacionais da União Europeia.
Neste contexto, parece muito clara e ponderada a posição do governo português, nesta matéria, estimulando e fomentando uma corrente politica na Europa que recrie os princípios morais e humanos em que foi fundada a União Europeia e que, de alguma forma, têm estado nos últimos anos secundarizados.
Defendendo que é necessário por parte da União Europeia uma resposta organizada e transversal a todos os Estados Membros, o que nem sempre tem acontecido, com alguns Estados a procurar resposta unilaterais para resolver o problema daqueles que tentam aceder ao interior das suas fronteiras, tentando empurrar o problema para "o quintal dos vizinhos".
È urgente estancar o fluxo migratório atual, distinguindo aqueles que são refugiados, na verdadeira aceção do termo, ou seja, aqueles que fogem de perseguições, em contexto de conflito, nos seus países, para os quais não podem voltar, sob pena de porem em perigo a sua própria vida; daqueles, que são migrantes económicos, isto é, aqueles que abandonam os seus países à procura de melhores condições de vida.
Se é certo que todos têm motivos válidos para o fazer, porque ninguém sai de um lugar onde tem boas condições de vida, mais ainda, sendo o seu país natal, também é verdade que a prioridade na solidariedade e apoio deverá centrar-se naqueles que fogem do flagelo e lutam única e exclusivamente pela sua sobrevivência, deixando para os outros a aplicação das regras disciplinadoras e reguladoras dos fluxos migratórios na Europa.
Com diminuição do fluxo migratório, através do acordo firmado entre a União Europeia e a Turquia, que estava a impedir, pela sua extensão, a Europa de encontrar uma resposta ao flagelo, espera-se que tal possa permitir uma resposta adequada ao sofrimento dos cerca de 160 mil refugiados que estão hoje na Grécia e em Itália e que necessitam no imediato de recolocação em melhores condições.
Desde logo urge combater as redes clandestinas de tráfico de pessoas.
Há também que desmistificar o receio que por vezes passa para a opinião pública, de que apoiando o acolhimento de refugiados, no meio deles, possam vir infiltrados terroristas.
Daí o trabalho importante que está a ser levado a cabo, de identificação e registo das pessoas, determinante para garantir a nossa segurança, bem como daqueles que nos procuram em busca de refúgio.
A recusa de acolhimento de refugiados com o receio do extremismo, traduzir-se-ia no desmoronamento da civilização humanista.
Deixemos esse trabalho e essa preocupação para as forças e serviços de segurança dos vários países que compõem a União Europeia.
De louvar o papel do governo português, que tendo uma quota de acolhimento de refugiados, no âmbito das suas responsabilidades enquanto membro da União Europeia, de 4486 pessoas, manifestou, desde já, a disponibilidade para receber mais seis mil, ao abrigo de programas específicos de colocação no ensino superior, no ensino profissional ou a trabalhar no setor primário.
Este é um verdadeiro processo de acolhimento solidário e inclusivo.

Saibamos todos dignificar a nossa tradição humanista e de um povo solidário que sempre fomos.

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