2016: O ano da Revolução Americana nos Tempos Modernos?

Ana Rita Alexandre

O ano de 2016 marca uma mudança importante no panorama político mundial. Todos os holofotes estão colocados na 58ª Eleição Presidencial nos Estados Unidos da América, a realizar no dia 8 de Novembro de 2016. Como dita a Constituição, mais concretamente a Vigésima Segunda Emenda, o actual POTUS, Barack Obama, encontra-se inelegível para um terceiro mandato, originando um espetáculo digno de Hollywood na escolha do seu sucessor. Por um lado, do Partido Democrata a luta trava-se entre Hillary Clinton, antiga Secretária de Estado e esposa de Bill Clinton e Bernie Sanders, senador pelo Estado de Vermont. A escolha do candidato democrata ainda tem que passar pelo crivo da Convenção Nacional do Partido Democrata a realizar no mês de Julho em Filadélfia.
Do outro lado do ringue, o Partido Republicano apresenta actualmente apenas um aspirante candidato após a retirada de John Kasich, Governador de Ohio. Donald Trump, empresário de sucesso bastante conhecido não só pelo intocável penteado mas também pelas inúmeras participações em programas televisivos, é o presumível candidato pelo Partido Republicano conforme o confirmará a Convenção Nacional do Partido.
Num período em que ainda se encontram a decorrer eleições primárias até ao mês de Junho, eleições em que são eleitos os delegados para a Convenção Nacional dos respectivos partidos, importa debruçar um pouco sobre os resultados que até agora surgiram. Do ponto de vista do Partido Democrata, Clinton partiu para esta luta como a favorita não só à vitória na eleição a realizar no Congresso do Partido, mas também à própria eleição como nova Presidente dos Estados Unidos da América. Estando na lide politica há bastante tempo, afirma-se como alguém conhecedor da política interna e problemas que ainda são bastantes visíveis numa nação com quase 320 milhões de habitantes. Ora, acontece que nas maiores lutas, ou melhor, neste caso, na luta da vida destes protagonistas, surgem os maiores adversários. Sanders, ao anunciar a sua candidatura despertou algo inédito nos Estados Unidos e arrisco-me a afirmar no mundo inteiro: a consciencialização do indivíduo perante a narrativa capitalista evidente dos grandes bancos e o constante atropelo pelos direitos fundamentais. A luta de Sanders não é fácil, mas não tem sido em vão. É visível o mar de gente que o acompanha em cada “rally” ou discurso, de Estado em Estado. A constante massa humana que o acompanha olha para Sanders como o resquício de esperança, o homem que, pela primeira vez desde há muito tempo, representa esperança numa nação tudo menos perfeita.
No lado azul da luta, o Partido Republicano está ao nível de um reality show barato. Começando pelos discursos vazios de conteúdo, até agora a campanha eleitoral tem sido marcada mais por constantes ataques pessoais e comentários descabidos e xenófobos, do que aquilo que deve ser o propósito de um candidato: um programa político exequível. A confirmação de Donald Trump enquanto candidato representa um duro golpe no Partido Republicano e nos seus valores, pondo em causa a sua fundação, estrutura interna bem como a própria eleição geral. Tendo por tradição a nomeação de um candidato mais centrista e moderado, a vitória de Trump poderá ditar uma cisão profunda e de demorada recuperação no partido que nos seus 162 anos de história nunca equacionou este cenário.
Enquanto espectadora assídua deste desenrolar de eventos nos EUA, não posso deixar de enfatizar a campanha de Bernie Sanders e a projecção que tem actualmente. O novo paradigma político que se tem vindo a verificar com a sua campanha pode muito ser considerado revolucionário e do ponto de vista ideológico, há quem o aponte como o renascer do socialismo moderno pela luta intransigente, numa das nações mais ricas do mundo, por melhores condições de saúde, trabalho, justiça, educação, entre outros tantos valores e desafios que a democracia actual procura ajudar. Bernie Sanders abraçou este desafio ciente da sua posição perante Hillary Clinton, mas cedo ganhou palco, procurando focar a sua campanha em questões fraturantes que ecoaram pelo resto do mundo. Certamente, perante os recentes desenvolvimentos eleitorais, a vitória ainda se encontra longe, mas o impacto que criou e o debate público gerado tornou esta campanha algo que transcende a eleição presidencial: é uma revolução política necessária que se debruça em problemas reais do séc. XXI.

O cenário político mundial depende, de certo modo, do resultado desta eleição. Daqui, do conforto possível deste país que já conheceu os seus dias de glória, aguardo pacientemente o resultado do dia 8 de Novembro. Será que está lançado o mote para um novo pensamento político? É esperar para ver.

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