Destruir e/ou Construir: A Mudança


José Pedro Gomes

As situações de desespero e desconfiança proliferam na Europa, e as consequências também já se reconhecem. Uma delas é o aumento do peso da extrema-direita em França.

Esta situação evidencia bem o facto da coesão social estar a ser posta em causa na Europa, enquanto base da democracia e até condição da mesma. As respostas e soluções que esses partidos preconizam são erradas e perigosas e só ganham força devido ao falhanço da Europa e à sua linha de orientação.

Essa linha de orientação, baseada no conservadorismo e liberalismo, tem dado provas do seu valor. Continua a insistir na austeridade pura e dura, não permitindo recursos para o crescimento económico e sem prioridades definidas para o futuro (destruir é fácil, e construir?). É uma austeridade que, apesar do que dizem, não significa poupar. É um empobrecimento que não controla a dívida. É um regresso ao passado, com indicadores sociais a que já não estávamos habituados.

É neste contexto de extremismos, populismos, conservadorismos e retrocessos que, a 2 meses das Eleições Europeias, o PS apresenta a sua lista completa e se coloca, ao contrário do que muitos apregoavam, à frente dos outros.

Estão lá os dossiers fundamentais (Emprego, União Económica e Monetária, Mar, Energia, Ciência e Tecnologia); está lá a experiência e força políticas; está lá a paridade; estão lá os independentes; está lá o profundo conhecimento da política europeia.

Se é pelas ideias e pelo projecto que queremos ganhar (e bem), podemos também estar tranquilos em relação à qualidade dos protagonistas.

O meu maior receio é que uma nova maioria de esquerda democrática na Europa não seja suficiente (nem pode ser um fim em si mesmo) para inverter a austeridade. No entanto, é certamente o único caminho que prevejo para a indução de uma mudança de política na Europa e, por consequência, em Portugal: com rigor orçamental, mas com crescimento e estimulação da nossa economia. No fundo, repetindo-me: destruir é fácil. Que tal construir?

O futuro da Europa está nas nossas mãos


       
Francisca Soromenho
Presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa
 
Para ter Novos Horizontes nem sempre é preciso olhar para longe: por vezes, para alargarmos a vista temos de olhar com o coração, e voltar a encarar de espírito aberto aquilo que já conhecemos. É isso que sinto relativamente à Europa e Eleições Europeias de Maio de 2014.


A crise da Zona Euro deixou-nos a todos com um sabor amargo na boca: a Austeridade comprimiu-nos aonde não devia, emagreceu-nos a alma. Principalmente para os menores de 28 anos que, como eu, nasceram Europeus, numa Comunidade Económica Europeia que, desde Schuman e Jean Monnet, se queria como projeto de união política. É triste chegarmos ao apogeu da nossa vida e perceber que muito do que se esperava era mentira. A cantilena europeia de promessa, promessas de prosperidade com as quais fomos nutridos até à idade adulta, parece falhar-nos de formas imperdoáveis. Somos jovens sem inocência, sem juventude, sem sonhos e sem esperanças. As populares políticas de Austeridade endureceram-nos o raciocínio e tornaram a linguagem áspera. O Estado Social, que aprendemos a valorizar, parece hoje uma bonita ilusão. E já não confiamos, e temos novamente medo.

Tenho medo que o sonho Europeu não passe de um delírio feliz de um pós-guerra excessivamente otimista, e como eu estão muitos eleitores europeus, principalmente os jovens, os que nunca antes sentiram dificuldades como hoje. O The Economist estimou em Janeiro que os eurocéticos à esquerda e direita poderiam ocupar de 16 a 25% dos assentos do Parlamento Europeu, num sinal de crescimento desta tendência a partir dos atuais 12%. Os eurocéticos esquecem-se é do que significaria, em termos económicos, políticos, sociais e humanos, retroceder do projeto Europeu. O que ele é e o que ele significa.

 Vamos ao princípio: a Europa, mais próspera ou mais austera, é uma Europa de segurança. Mas não de uma segurança armada, militarizada, policial, de barreiras e detetores de metais, de serviços secretos e de vigilância constante. A Europa é onde se valoriza a minha liberdade, a minha privacidade e o meu espaço. Na Europa defende-se a dignidade da pessoa humana, de cada pessoa individualmente considerada, e somos todos reconhecidos enquanto tais. Na Europa posso estudar, posso crescer, sou apoiada enquanto jovem empreendedora, sou acolhida enquanto dirigente associativa. Na Europa garante-se o direito à felicidade e concretização individual de cada um. Na Europa os Governos esforçam-se para que eu conheça os meus direitos e deveres de cidadã. Na Europa, não sou escrava do meu trabalho, porque sei que os direitos dos trabalhadores são tutelados. Na Europa confio nas forças de segurança, e sei que todos os serviços me serão prestados, e sê-lo-ão com o mesmo cuidado a um sem-abrigo e a um rei. Na Europa, sempre vivi numa sociedade que por mais tumultos políticos tenha, coexisto em harmonia com as outras pessoas de todos os géneros, todas as idades, com todas as preferências sexuais, de todos os credos e raças, de todos os meios socioeconómicos Esta é a Europa de união monetária, económica, social e política em que tanto gosto de viver. Mas é uma Europa que eu reconheço cada vez menos. É esta  Europa pela qual eu, e todos os jovens, temos de lutar e defender, até às últimas consequências.

 Temos o dever de não baixar os braços, eleitores hoje, eleitos amanhã, de nós é que a Europa é feita. Somos a geração Erasmus. Somos quem vai construir a Europa do amanhã, dos nossos filhos. O que está em causa é o futuro, tanto em termos geopolíticos globais e de balance of power como em termos pessoais e individualizados. Todo o fundamento filosófico e ideológico do Projeto Europeu se deposita agora nas nossas mãos; todas as garantias que asseguram a dignidade da pessoa humana de cada pessoa que habita na Europa; é a paz, a estabilidade, a segurança e a liberdade que permite a cada um escolher-se.

Vamos às urnas, de 22 a 25 de Maio de 2014. Vamos às urnas não enquanto jovens passivos, não enquanto cidadãos nacionais oprimidos e condicionados, não enquanto europeus indiferentes. Cai sobre nós o ónus de nos informar e ascendermos à dignidade da nossa condição; somos jovens ativos e participativos, somos europeus convictos em primeiro lugar, e damos corpo à geração mais preparada e educada da História da Humanidade e também da Europa. Faço votos para que a adesão a este ato eleitoral seja esmagadora e seja expressiva do que nós queremos e devemos construir: uma Europa pensada e refletida, combativa da austeridade cega, opressiva e assassina, que vote massivamente em partidos com políticas alternativas que cujas medidas zelem pela condição real das pessoas e assegurem também o equilíbrio económico intergeracional – sem sufocar, sem esmagar, sem matar. Este Maio vamos dar o primeiro passo na construção de uma Europa a vinte e oito mãos, por 508 milhões de pessoas que querem participar, pensar-se, mudar-se, refletir-se e crescer em Democracia, em Igualdade, em direitos e garantias, em Liberdade e em Justiça. Tudo começa agora para Ser Europa, e tornarmo-nos uma Europa melhor.


A Europa, a necessidade de refundação e as eleições Europeias.


         
Vitor Simão.
Numa altura em que estamos perante uma campanha para as eleições Europeias e através da qual somos diariamente invadidos com a temática da Europa, urge esclarecer e debater a Europa de forma clara e transparente para que no dia “D” sejam mais os esclarecidos do que aqueles que não o estão. Estamos perante um modelo de governação nacional falido, mas se hoje falamos na falência dos sucessivos governos nacionais é também preciso assumir que de forma sucessiva e quanto a mim premeditada a Europa FALHOU. Falhou porque interessa a países como a Alemanha ter um superavit quando países como Portugal está em deficit sucessivo alimentando o superavit Alemão a uma escala nunca vista. Quem diz Portugal diz a Grécia, Irlanda, Espanha entre tantos outros, daí a minha crença na premeditação do falhanço Europeu. O Modelo Europeu tinha tudo para ser um modelo integrador, um modelo promotor da igualdade e da solidariedade entre Estados, porém esta Europa conseguiu exactamente o contrário, conseguiu que o fosso entre Estados aumentasse a uma escala que nos devia fazer parar e pensar se é mesmo esta a Europa que queremos para o hoje e para o  amanhã. Esta falta de igualdade e solidariedade entre alguns estados Europeus faz me acreditar que o modelo Europeu tal como o conhecemos FALHOU. Mas desenganemo-nos se pensamos que o modelo falhou por causa desta crise económica. A crise económica não foi mais do que o  culminar de uma crise muito maior e que levou ao estado em que estamos hoje, uma crise de valores. Mais do que uma remodelação económica, a Europa precisa de rever os valores como a igualdade e solidariedade entre os Estados pois só assim podemos refundar a Europa.

         Chegados a este ponto interessa olhar para as próximas eleições Europeias como o catalisador para essa alteração de paradigma. Perguntam-me e bem, como? Pois eu respondo inequivocamente: Com uma viragem à esquerda na governação Europeia. Mas com uma viragem para uma esquerda verdadeira e não aquela que por vezes aparece camuflada pelas rosas e pelos punhos esquerdos  por essa Europa fora. Só uma Europa com um “PES”  verdadeiramente de esquerda, com politicas de esquerda e com a máxima responsabilidade, só essa Europa pode renascer e fazer com que os Europeus voltem a acreditar no modelo Europeu. Esta é a Europa em que eu acredito, esta é a Europa que ainda não vislumbro, nem sequer ao longe, mas esta é a Europa pela qual todos devíamos lutar até que a mesma se tornasse realidade.

         No tocante às próximas eleições Europeias e apresentados que estão os dois candidatos dos dois maiores partidos em Portugal, por um lado, pela coligação PSD/CDS, Paulo Rangel, e pelo PS Francisco Assis, interessa agora analisar as próximas eleições. Comecemos por Paulo Rangel, que já foi candidato nas ultimas eleições, e por sinal vencedor com cerca de 32% contra 27% do PS encabeçado na altura por Vital Moreira. A favor de Paulo Rangel está o  ser um candidato que já venceu umas eleições e a acrescentar a esse factor está o facto de este estar no terreno com um conjunto de ideias/propostas para a Europa. O PS apresentou, quanto a mim tardiamente, Francisco Assis como candidato e digo tardiamente porque um partido como o PS que diz ter um ideário sustentado para a Europa não pode de forma alguma ter receio de se apresentar a “jogo” primeiro que o seu adversário. O PS não pode reagir o PS tem a obrigação de agir, e como não o fez, sai quanto a mim atrasado na “corrida” para estas eleições.  A acrescentar a este erro estratégico está o facto de o PS ter apresentado um candidato sem primeiro ter traçado um conjunto de ideias relativas à Europa. Um partido antes mesmo de apresentar uma cara tem de apresentar ideias, não se pedia que se apresentasse um programa eleitoral para a europa, mas pedia-se que se apresentassem algumas ideias bases, isso sim era obrigatório. Construiu-se a casa ao contrario, primeiro o candidato, depois o ideário. Ainda vai a tempo o PS de contrariar estes erros iniciais? Assim espero, pois como disse só uma Europa de esquerda pode ultrapassar os problemas de hoje, e o PS é mais do que capaz, e já o mostrou no passado, de ultrapassar as dificuldades e na humildade da sua matriz ideológica encontrar o caminho para os problemas que hoje se nos apresentam.

       Acabo como comecei, dizendo que a Europa tal como a conhecemos FALHOU. E passa por admitir este falhanço a possibilidade de refundar a Europa. Temos de ser superiores aos erros do passado e olhar para o futuro com a humildade necessária de alguém que sabe que errou e que só assim pode alterar o futuro. A Europa precisa perceber que errou, precisa ser humilde e aceitar que o fim da linha chegou, e que é agora que a Europa se começa a reconstruir, e desta vez, espero eu com uma verdadeira noção de igualdade e solidariedade entre todos os Estados.