UM CACIQUE DE PALAVRAS VÃS


Na passada semana na sua coluna de opinião o reconhecido politólogo José Adelino Maltez discorria sobre o quão enraizado está o “caciquismo” em Portugal. Oferece, até, no fim do seu artigo, uma citação do intemporal Eça de Queiroz e da sua grande obra “As Farpas”. As palavras soam bem mas não só não impressionam como são letra morta.

O José Adelino Maltez é daqueles que tem espaço para veicular opinião em destacados fóruns nacionais. Pertence aquela classe (ou pelo menos tenta) que se apelida de “opinion makers”, ou num portuguesismo menos exato: fazedores de opinião.

Este artigo não é sobre o José Adelino Maltez nem contra o homem. É contra os fazedores de opinião que falam em cacique, tentando verter e vender a ideia de que estão contra uma figura que eles próprios representam.

Quem quer escrever sobre a podridão da politica e dos grupos de pressão e, bem assim, do seu caciquismo, por estar na moda e por ser verdade, ou fala em nomes ou mais valia estar calado e quieto na praia a ler a Ética a Nicómaco.

É preciso falar em nomes. É preciso atacar aquilo que dizemos não gostar e fazê-lo de forma consequente. É o João Duque que era tão socialmente ativo e agora conta os interesses que descem pela cascata? É o Nogueira Leite que se arrogava de ser um catedrático em economia e rejeita ser ministro para ir para a CGD auferir “salários criminosos” para agora já estar na EDP renováveis? E Eduardo Catroga que recebeu 430.000€ da EDP em 2012?

É deste patriotismo que queremos falar. São estes e tantos outros que têm de ser sujeitos a escrutínios firmes e implacáveis. O José Adelino Maltez podia guardar a viola e ir tocar a outra cigarra.

Se os “fazedores de opinião” gostam de citar, talvez fosse útil que não decorassem só aquilo que lhes convém e os soudbytes que lhes parecem ter um ruído saudável aos tempos. Leiam mais. Leiam tudo. Leiam Florbela Espanca que desapareceu com 35 anos mas ainda a tempo de escrever algo que todos os que fazem opinião deviam ter na mesa de cabeceira como o Papa tem a bíblia:

O costume português é deixar-se tudo em palavras mas palavras que são bolas de sabão deitadas ao ar para distrair pequeninos de seis anos”.




André Matias
Advogado estagiário em
Jardim, Sampaio, Magalhães e Silva & Associados

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