Aquilino Ribeiro: tão atual, 50 anos depois da sua morte!

Há homens que por circunstâncias, as mais diversas, dedicam a vida, a sua vida, a uma causa maior, a luta por um ideal: o da justiça, da fraternidade e da liberdade universal.
São homens que trazem “o inconformismo no sangue”, que são “inteiriços de coluna” e “insubmissos a toda a espécie de jugos”.
Trago aqui hoje um desses homens, Aquilino Ribeiro; beirão das terras, que batizou, do demo; natural do distrito de Viseu; do interior de Portugal.
Conheci-o às escondidas, pelo seu legado, pelos seus livros, dez anos depois da sua morte, nos anos setenta, ainda quando os lobos uivavam e a censura reprimia a expressão.
Interpelado desde então, aqui o partilho volvidos que são cinquenta anos sobre a sua morte. Cinquenta anos que se cumpriram no dia 27 de maio.
Trago aqui o homem, mas também o escritor, o cultor da palavra, o intérprete dos sons e o político inquebrantável na defesa dos direitos do seu povo, das suas gentes, do seu território.
Ou não tivesse ele nascido no Carregal, aldeia do concelho de Sernancelhe, vivido em Soutosa, aldeia de Moimenta da Beira e calcorreado, Vila Nova de Paiva, Sátão, Viseu, Lamego e tantos e tantos outros locais, nomeadamente, dos distritos de Viseu e da Guarda.
De todos os locais nos deixou marcas, retalhos, diálogos, mais ou menos ficcionados, na sua vastíssima obra literária. Detalhes dos seus estudos; da evasão da cadeia; de exílios e de refúgios; de crítica política; de conspirações contra o regime; ou de participação em movimentos militares.
Foram inúmeras as geografias sentimentais de Aquilino, foram muitos os seus espaços de intervenção, foram intensos os seus trajetos em 78 anos de vida.
Se vos falo aqui de Aquilino não é para lhe render mais uma homenagem. É antes um tributo, creio que, de todos os viseenses que sentem o seu pulsar aqui e agora, porventura, ainda de forma mais acutilante, mais forte nestes tempos da ira, em que nos tolhem os ventos da esperança.
Evocar Aquilino está, pois, para além da sua própria dimensão e do seu tempo. Evocá-lo é também gritar a revolta contra os ataques do centralismo do terreiro do Paço; os ataques desferidos contra o interior, afinal, contra Portugal. Os ataques contra os municípios e as freguesias; os ataques aos tribunais; aos serviços de saúde e de educação… afinal lutar por aqueles serviços e instituições que, verdadeiramente, diferenciam e dão sentido à ocupação de todo o território nacional.
Evocar Aquilino é também hoje uma luta, permanente, pela defesa da nossa dignidade na certeza de que, como ele dizia:
Alcança quem não cansa!

(Nota: Breve extrato de uma intervenção na AR)
Acácio Pinto
Notícias de Viseu | Diário de Viseu

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