Eleições em Itália: Ensinamentos para o caso Português



As Eleições Italianas devem deixar-nos alguns ensinamentos. Os resultados do Movimento 5 Estrelas, do comediante Beppe Grilo que obteve cerca de 20% da votação, mostram bem o desencanto que os cidadãos/eleitores têm hoje dos políticos e dos partidos tradicionais, da esquerda à direita sem excepções, enquanto estruturas ortodoxas muito pouco permeáveis à renovação e à mudança.


Mostram também a emergência de novos actores políticos, movimentos de cidadãos que se formam de forma quase adoc em torno de causas muito concretas e suportados em novas formas de comunicação muito eficazes. Se duas leituras fortes esta eleição nos deu é que, quer as políticas de austeridade, quer o sistema político, ficam claramente colocados em causa.
Interessante ler o estudo, disponível online, da think-thank Inglesa Demos que analisa em detalhe o perfil do cidadão/eleitor médio italiano no M5S de Grilo e releva a forma como hoje as plataformas de rede sociais, Facebook, Twitter, Goggle+ e o LinkedIn facilitam a emergência de Novos Movimentos Sociais que desafiam seriamente os partidos tradicionais. De acordo com o estudo os cidadãos/eleitores de Grilo são mais qualificados que a média italiana e com maior probabilidade de ficarem desempregados. Apenas 11% acredita na imprensa, 8% confia no Governo e 3% nos partidos políticos.
Um dos bloqueios do nosso sistema político é a fraqueza da nossa Sociedade Civil. A sua fraqueza, no passado recente, levou a que os partidos monopolizassem por completo o espectro da Política Portuguesa reduzindo a nossa Democracia ao quadro da Representatividade Parlamentar, Autárquica ou Europeia. O sistema repete-se, ritualmente, de 4 em 4 anos, no quadro de cada uma das eleições. Mas falar em participação política em Portugal para lá disto é fantasiar. Pura e simplesmente ela não existe porque ao longo dos anos nos fomos omitindo de a fazer.
Se alguma coisa esta crise que atravessamos nos fez aprender é que fomos todos demasiado irresponsáveis na forma como ao longo deste tempo delegámos o nosso poder naqueles que nos iriam “representar”. A irresponsabilidade é co-partilhada por todos aqueles que também se foram abstendo nos sucessivos actos eleitorais. Não podemos, pois, exigir mais da nossa Democracia quando os nossos direitos políticos se resumem a “colocar uma cruz num boletim de voto” de quatro em quatro anos e acreditar em tudo que nos prometeram vai ser concretizado.
É muito provável que uma das consequências desta crise seja necessariamente a emergência de Novos Sujeitos e Actores Políticos com capacidade para se afirmarem de forma sustentada na Sociedade Civil e com capacidade para disputar o “território da política” até agora monopolizada pelos partidos: o Movimento do 15 de Setembro (Que se Lixe a Troika: Queremos as Nossas Vidas) é bem exemplo disso. É saudável que tal aconteça. Primeiro porque condicionam os partidos tradicionais obrigando-os a mudar práticas ortodoxas e fechamentos impossíveis de manter face à pressão da rua. Segundo porque alarga significativamente o leque de opções dos cidadãos/eleitores. A emergência da Democracia Participativa deverá ser uma prioridade absoluta do nosso sistema democrático saindo em seu reforço.
Alexandre Azevedo Pinto,  Economista

1 comentário:

  1. Quando dei comigo como estudante universitário em Coimbra em 1964 apercebi-me de que nunca tinha lido um livro, a não ser os obrigatórios escolares. O que havia de formativo em termos políticos e sociais resumia-se ao Aquilino (que era difícil como burro)e a algumas coisas do index que andavam escondidas nas casas da classe média. Passámos a ouvir a Voz da Liberdade e a ler o Comércio do Funchal porque os "evoluídos"liam o Avante e o Livro Vermelho. Isto paga-se

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