Divida Soberana Portuguesa: uma leitura importante de Kenneth Rogoff

Este fim de semana o Expresso trás uma entrevista muito interessante com o Professor do Departamento de Economia de Harvard, Kenneth Rogoff. Acerca de dois anos, antes da formação deste Governo e logo após assinatura do Memorando com a Troika, escrevi no Jornal do Centro um texto que alertava para a necessidade, já nessa altura, do País reestruturar a sua dívida soberana. Mais que uma necessidade esta reestruturação tornar-se-ia uma inevitabilidade.
Penso que esta leitura, já tão evidente nessa altura, ganha hoje um significado ainda maior, uma vez que passados dois anos de uma “governação de austeridade” se percebe o fracasso total e devastador desta política. O sobre endividamento português, que esta política não conseguiu controlar antes agravou, irá condenar-nos a um longo período de estagnação económica (Rogoff estima um período de 15 anos), caracterizado por períodos alternados de recessão ou crescimento anémico e com taxas de desemprego inimagináveis. Penso que rapidamente chegaremos a valores reais de desemprego bem acima dos 20 por cento e com taxas de desemprego jovem muito próximas dos 45 a 50 por cento. Obviamente a pressão social começa a ser enorme e irá tornar-se insustentável com aumento significativo dos níveis de conflitualidade social em todo o País.
A reestruturação da dívida soberana portuguesa é incontornável: juros mais baixos; alargamento de garantias de novos empréstimos por parte do Banco Central Europeu; políticas de repressão financeira e segundo Rogoff “os alemães vão acabar por ter de concluir, de um modo lento e doloroso, que ou vão perder o dinheiro durante a recessão continuada e com crises ou simplesmente terão de fazer uma assunção de perdas”, dai que o perdão de uma parte da dívida seja um cenário bem mais realista do que aquele que hoje temos.
Esta política de finanças públicas, que o Governo tem colocado em marcha e que procurou o desendividamento público através de um processo de deflação interna e de uma forte desalavancagem através da austeridade, está a criar uma enorme chaga social com repercussões ainda não completamente visíveis. As consequências deste desastre serão muito difíceis de reverter no médio prazo sobretudo se tivermos em atenção a ideia de que um novo ciclo de crescimento económico não se lhe sucederá tão depressa e essa é mais uma ideia feita que os adeptos da austeridade ainda não conseguiram entender nesta conjuntura.
Alexandre Azevedo Pinto, Economista_Investigador em Finanças Públicas na Faculdade de Economia da Universidade do Porto.

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