A Grécia aqui tão perto?






Se esta crise podia ter algum mérito, era o mérito de nos fazer pensar. Pensar nas causas e nos erros cometidos. Identificar os protagonistas que nos fizeram mergulhar neste caos. Refletir sobre as práticas e condutas indignas que provocaram um número indeterminável de vítimas e de vidas dilaceradas.

Parar para pensar. Refletir. Há anos que escrevo sobre essa necessidade mas, infelizmente, a verdade é que tudo aparenta estar bem, quando os bolsos de quem decide estão bem.

Na semana passada, as imagens de cidadãos gregos a suplicar por sacos de fruta e legumes, junto de uma manifestação de agricultores correram mundo. Os olhares angustiados, as mãos levantadas, os empurrões e a tristeza desses rostos são devastadores.

Quem são estes cidadãos gregos, que aparecem nestas imagens? O site grego Newsit escreveu que “… estas pessoas não são pedintes. São vítimas de uma crise económica que como um furacão passou e deixou por terra famílias inteiras. São vizinhos que até ontem tinham empregos e uma vida normal. Hoje estas pessoas, engolindo o seu orgulho e dignidade, vão onde quer que seja preciso para encontrar um pouco de comida gratuita, como fizeram aqui”.

Ou seja, as pessoas que nessas imagens suplicam, angustiadas, por legumes e fruta são pessoas que até há bem pouco tempo tinham uma vida estável, emprego, casa, comida e família. Hoje sobrevivem com dificuldades até há bem pouco tempo inimagináveis.

Estará a Grécia aqui tão perto? Será que junto de nós não existem pessoas com esta angústia? Será que não há em Portugal uma pobreza envergonhada, que sofre no silêncio? Claro que há. E custa! Custa saber que essas dificuldades existem à nossa volta e que hoje afetam uns e amanhã irão afetar outros. Um dia, se já não hoje, um de nós poderá estar nesta situação.

Por tudo isto, revolta-me que em Portugal ainda haja um sentimento de que tudo está bem quando as dificuldades estão na porta ao lado. Revolta-me que estejamos preocupados com sondagens, jogos de poder e bastidores, sem que nos preocupemos primeiramente com o que interessa: as Pessoas.

Não sou um cético da política, nem dos políticos. Mas não consigo perceber que a política não se foque no diagnóstico dos problemas e na busca de soluções. Não consigo perceber que a política continue num patamar distante dos problemas das populações, reinando sobre a vida de todos e de cada um, com base em estatísticas e em números. 

É urgente ter os melhores a abraçar a causa pública. É urgente ter nas lideranças públicas pessoas que conheçam os problemas, as dificuldades e que deem respostas e um horizonte de esperança aos cidadãos. Amanhã é tarde.

A Grécia aqui tão perto?

Artigo publicado no Diário de Viseu

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