UM GOVERNO SEM FUTURO





Se já não existiam grandes dúvidas sobre o fracasso das políticas globais deste Governo, no que diz respeito ao equilíbrio do défice das contas públicas o desastre é total. Num relatório sobre a execução orçamental no primeiro semestre o valor do défice terá atingido os 6,9% muito acima dos 4,5% previstos para o final deste ano. Até ao final de 2012 é muito provável que o valor fique muito próximo dos 6%. Convém lembrar que esta foi a grande aposta política da coligação de direita que suporta o Governo tendo colocado o País numa trajectória fortemente recessiva desde o primeiro trimestre de 2011.

O Governo falhou em toda a linha. Todos os enormes sacrifícios pedidos aos portugueses, feitas as contas, acabaram por se saldar num enorme fracasso: a taxa do desemprego caminha rapidamente para os 17%, sendo que entre os jovens ela é de cerca de 33%, os níveis de pobreza alastram de forma dramática e as contas públicas continuam desequilibradas.

De que valeram então todos os sacrifícios? Esta é a pergunta que legitimamente hoje todos fazemos. Se esta era uma questão incontornável até à passada sexta-feira, momento em que o Primeiro Ministro apresentou um conjunto de medidas adicionais que na prática se irão traduzir num fortíssimo agravamento da carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho, ela ganhou uma nova legitimidade. Qual é o limite dos sacrifícios? E para quê se afinal tudo fica pior do que estava?

Parece-me claro que se atingiu há muito o ponto máximo de esforço possível dos portugueses. Da parte do Governo persiste-se no erro de atacar a austeridade com mais austeridade. Esta estratégia irá agravar a situação, criará uma mancha de pobreza ainda maior,  gerará um forte descontentamento e contestação social e arruinará muito do tecido social e económico que tem até agora lutado desesperadamente pela sobrevivência. É exactamente isto que neste momento está em causa: sobrevivência de muitas pequenas empresas e de muitas famílias. Será que o Governo ainda o não percebeu?

Até há passada sexta-feira, parecia também notório, tendo vindo a acentuar-se nas últimas semanas, o mau estar entre os partidos da coligação que suportam este Governo. Quer na questão da concessão do serviço público da RTP a privados e na privatização da ANA, quer nas orientações de política fiscal (no eventual quadro de agravamento de impostos) ou ainda no desentendimento para uma proposta comum de alteração da lei autárquica, PSD e CDS falavam de coisas diferentes.

A dúvida criou-se: será que coligação de Governo estaria a atravessar um mau momento? Ou seria apenas um jogo de espelhos e um conjunto de cortinas de fumo que o CDS de Paulo Portas quis lançar para mostrar uma “aparente” demarcação do desastre que se anuncia? Sente-se algum desnorte nos partidos que suportam o Governo de certa forma traduzido por uma negação da própria realidade. Na reacção às medidas anunciadas por Passos Coelho o representante parlamentar do PSD dizia que as medidas apresentadas eram medidas de apoio ao emprego. Como diz? Não se importa de repetir? Por parte do CDS o seu representante parlamentar, numa reacção quase pavloviana, assegurava que as medias não se traduziam num aumento de impostos nem da carga fiscal. Mas alguém acredita nisto?

Alexandre Azevedo pinto,
Economista

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