Quando vai recuar a Troika?




“Nos 15 minutos que Passos Coelho demorou para anunciar o seu esquema na televisão, no início do mês, conseguiu a notável proeza de unir não só os partidos da oposição contra o seu plano ‘intolerável’, mas também os sindicatos, os patrões e os economistas”

“Pedro Passos Coelho está a descobrir que a austeridade não pode ser levada além do limite determinado pelos eleitores, quer estejam em motins violentos em Atenas ou em marchas pacíficas em Lisboa”.

Excertos do artigo “O ponto de viragem: Quanta austeridade é demasiada austeridade?”,
The Economist.

Durante meses a fio ouvimos dizer que Portugal era o bom aluno da Europa. A troika impunha medidas e metas na Grécia e a Grécia falhava. A troika impunha medidas e metas em Portugal e Portugal cumpria e crescia. Perante estas constatações, a troika retirava duas conclusões: (i) tinha descoberto a poção mágica, no plano financeiro e económico, para os Países intervencionados; (ii) se os planos vingavam em Portugal e não na Grécia, era evidente que o problema era da Grécia e não da troika.

Sucede que estas conclusões “troikistas” em nada melhoravam o dia-a-dia dos Portugueses e eis senão quando o Primeiro-Ministro, regressado de férias, decide anunciar mais medidas de austeridade. “Se este Povo já aguentou tantas medidas, não será por mais um pacote de austeridade que as coisas se vão alterar”, terá seguramente pensado Pedro Passos Coelho.

Pensou mal, como se vê. Desde logo, Pedro Passos Coelho errou na altivez com que quis impor mais austeridade. Depois, errou ao esquecer que a frágil coligação que lidera não é uma coligação de ideais, mas de meras conveniências político-partidárias. Finalmente, errou porque se esqueceu que há milhões de Portugueses que sofrem na pele as agruras do desemprego e da pobreza e que não estão dispostos a suportar mais sacrifícios.

Pedro Passos Coelho apenas se pode queixar de si próprio e do seu manifesto desconhecimento sobre o quotidiano do Povo Português. Sejamos claros: perante a rentrée política deste ano, parece evidente que Passos Coelho não sabe, nem sente que as estatísticas e algoritmos que fazem vibrar de júbilo os tecnocratas, em nada têm melhorado a vida dos Portugueses. Passos Coelho não sabe, nem muito menos sente que há Portugueses desesperados porque não têm emprego, nem casa, nem dinheiro para comer. Aliás, se Pedro Passos Coelho tem conhecimento desta realidade, então mais grave se torna a forma como quer impor mais e mais austeridade aos Portugueses.

É sabido que "a democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo" e, por isso, é imperioso perguntar: será que o Povo Português se revê no actual “governo”? Parece-me evidente que não.

O Povo Português está farto de ser a cobaia de um tubo de ensaio que teima em dilacerar pessoas e não produzir resultados. O Povo Português percebe que o acumular de dívidas, sem o aumento de receitas, apenas contribui para agigantar as dívidas. Tudo isto é manifesto para todos, menos para a troika e para os seus seguidores acríticos.

Depois de duas semanas em que (quase) todos criticaram as medidas do Governo, o Governo recuou. Há pelo menos dois anos que (quase) todos criticam a “receita” da Troika e esta teima em não recuar. Se o Governo recuou, tenho esperança que a Troika um dia faça o mesmo. A pergunta é só uma: quando vai recuar a Troika?

Artigo publicado no Diário de Viseu

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