Rating de Portugal sofreu corte sete vezes superior ao que era justificável



O estudo é da universidade suíça de St. Gallen e diz que as agências de notação financeira alimentaram o endividamento na Zona Euro ao procederem a avaliações de "rating" mais severas desde que a crise da dívida soberana começou a revelar-se em 2009. Portugal está entre os exemplos do exagero a que foi sujeito nos cortes.

Uma análise mais detalhada à dinâmica do efeito que os cortes de “rating” da dívida tem sobre as taxas de juro revelou que, pelo menos em relação aos países com notações soberanas fora da categoria ‘A’ (que é a mais elevada), os “downgrades” erróneos, arbitrários ou abusivos podem facilmente criar as condições propícias a que de facto se justifique esse “rating”. A conclusão é de um estudo realizado pelos investigadores Manfred Gärtner e Björn Griesbach, da universidade suíça de St. Gallen.

“Conjugado com a prova de que muitos dos cortes de ‘rating’ dos países da periferia da Zona Euro parecem ter sido arbitrários e não puderam ser justificados com base nos algoritmos de ‘ratings’ que explicam as notações de outros países ou as avaliações anteriores a 2009, este resultado é bastante desconfortante. É preciso que os governos olhem mais atentamente para os mercados financeiros em geral e para os mercados das obrigações soberanas em particular, bem como para as motivações, dependências e conflitos de interesse dos principais ‘players’ desses mercados”, acrescenta o estudo, que analisou a crise da dívida soberana resultante da crise financeira e imobiliária de 2007-2009.

Baseando-se nos dados de 25 países da OCDE – incluindo Portugal – no período entre 2009 e 2011, incluindo os dados relativos ao PIB e os dados orçamentais, bem como os "ratings" atribuídos pela Fitch, os autores do estudo chegaram à conclusão que a dimensão dos cortes de “rating” foi exagerada, nomeadamente no que diz respeito aos três países já intervencionados pela troika (Grécia, Irlanda e Portugal).

Recorde-se que a crise da dívida soberana começou a ganhar forma na Zona Euro em 2009, tendo a Grécia sido o primeiro Estado-membro da união monetária a pedir ajuda externa, em Maio de 2010. Seguiu-se a Irlanda, em Novembro do mesmo ano, e Portugal em Abril de 2011.

Numa análise país a país, o estudo conclui que, relativamente a Portugal, a deterioração dos seus fundamentais fez com que a curva do “rating” soberano se desviasse em 0,62 graus entre 2009 e 2011, o que suporia um corte inferior a um nível em termos de avaliação da notação. “No entanto, o país foi cortado em oito níveis durante esse período”, sublinham os dois economistas responsáveis por esta investigação.

Assim, Manfred Gärtner e Björn Griesbach referem que as agências de notação financeira não foram consistentes nas suas avaliações, tendo ficado mais “críticas” à medida que a crise se foi adensando, atribuindo aos países, em média, um “rating” inferior em um nível para determinadas taxas de juro e outras variáveis do que antes de 2009.

Portugal, Irlanda e Grécia, que acabaram por ter de pedir ajuda internacional, foram classificados, em média, 2,3 níveis abaixo dos padrões utilizados antes da crise, sublinha o estudo, acrescentando assim que os “choques de rating” terão desempenhado um papel preponderante na gestação e propulsão da crise da dívida na Europa.

“Muitos países da Zona Euro foram tratados de maneira diferente depois da crise financeira e isso contrasta com a forma como outros países continuam a ser tratados”, comentou Gärtner à Reuters.

Os dois economistas da universidade suíça de St. Gallen usaram os “ratings” da Fitch para este estudo, pois era a única agência que disponibilizava publicamente os dados para o período em análise, mas sublinham que existe uma elevada correlação entre estas notações e as que foram atribuídas pelas duas outras grandes agências – a Moody’s e a Standard & Poor’s.

O estudo demonstra ainda que o corte da notação em um nível aumenta os juros da dívida soberana em 0,3 pontos percentuais, em média, quando esses “ratings” estão compreendidos no patamar mais elevado – entre ‘AAA’ e ‘A’. Esse custo aumenta para 3,12 pontos percentuais quando a classificação do crédito está já no segmento dos ‘B’ ou abaixo, denotando um grau muito mais elevado do risco de investimento.

“Quando um país é empurrado para o segmento ‘B’, está a caminhar cada vez mais para a insolvência e não consegue resgatar-se a si mesmo, precisa de ajuda vinda de fora”, disse Gärtner à Reuters. “As agências de ‘rating’ conseguiram afastar os mercados financeiros da percepção do problema, fazendo com que os governos pareçam os culpados”, acrescentou.

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