Rating de Portugal sofreu corte sete vezes superior ao que era justificável



O estudo é da universidade suíça de St. Gallen e diz que as agências de notação financeira alimentaram o endividamento na Zona Euro ao procederem a avaliações de "rating" mais severas desde que a crise da dívida soberana começou a revelar-se em 2009. Portugal está entre os exemplos do exagero a que foi sujeito nos cortes.

Uma análise mais detalhada à dinâmica do efeito que os cortes de “rating” da dívida tem sobre as taxas de juro revelou que, pelo menos em relação aos países com notações soberanas fora da categoria ‘A’ (que é a mais elevada), os “downgrades” erróneos, arbitrários ou abusivos podem facilmente criar as condições propícias a que de facto se justifique esse “rating”. A conclusão é de um estudo realizado pelos investigadores Manfred Gärtner e Björn Griesbach, da universidade suíça de St. Gallen.

“Conjugado com a prova de que muitos dos cortes de ‘rating’ dos países da periferia da Zona Euro parecem ter sido arbitrários e não puderam ser justificados com base nos algoritmos de ‘ratings’ que explicam as notações de outros países ou as avaliações anteriores a 2009, este resultado é bastante desconfortante. É preciso que os governos olhem mais atentamente para os mercados financeiros em geral e para os mercados das obrigações soberanas em particular, bem como para as motivações, dependências e conflitos de interesse dos principais ‘players’ desses mercados”, acrescenta o estudo, que analisou a crise da dívida soberana resultante da crise financeira e imobiliária de 2007-2009.

Baseando-se nos dados de 25 países da OCDE – incluindo Portugal – no período entre 2009 e 2011, incluindo os dados relativos ao PIB e os dados orçamentais, bem como os "ratings" atribuídos pela Fitch, os autores do estudo chegaram à conclusão que a dimensão dos cortes de “rating” foi exagerada, nomeadamente no que diz respeito aos três países já intervencionados pela troika (Grécia, Irlanda e Portugal).

Recorde-se que a crise da dívida soberana começou a ganhar forma na Zona Euro em 2009, tendo a Grécia sido o primeiro Estado-membro da união monetária a pedir ajuda externa, em Maio de 2010. Seguiu-se a Irlanda, em Novembro do mesmo ano, e Portugal em Abril de 2011.

Numa análise país a país, o estudo conclui que, relativamente a Portugal, a deterioração dos seus fundamentais fez com que a curva do “rating” soberano se desviasse em 0,62 graus entre 2009 e 2011, o que suporia um corte inferior a um nível em termos de avaliação da notação. “No entanto, o país foi cortado em oito níveis durante esse período”, sublinham os dois economistas responsáveis por esta investigação.

Assim, Manfred Gärtner e Björn Griesbach referem que as agências de notação financeira não foram consistentes nas suas avaliações, tendo ficado mais “críticas” à medida que a crise se foi adensando, atribuindo aos países, em média, um “rating” inferior em um nível para determinadas taxas de juro e outras variáveis do que antes de 2009.

Portugal, Irlanda e Grécia, que acabaram por ter de pedir ajuda internacional, foram classificados, em média, 2,3 níveis abaixo dos padrões utilizados antes da crise, sublinha o estudo, acrescentando assim que os “choques de rating” terão desempenhado um papel preponderante na gestação e propulsão da crise da dívida na Europa.

“Muitos países da Zona Euro foram tratados de maneira diferente depois da crise financeira e isso contrasta com a forma como outros países continuam a ser tratados”, comentou Gärtner à Reuters.

Os dois economistas da universidade suíça de St. Gallen usaram os “ratings” da Fitch para este estudo, pois era a única agência que disponibilizava publicamente os dados para o período em análise, mas sublinham que existe uma elevada correlação entre estas notações e as que foram atribuídas pelas duas outras grandes agências – a Moody’s e a Standard & Poor’s.

O estudo demonstra ainda que o corte da notação em um nível aumenta os juros da dívida soberana em 0,3 pontos percentuais, em média, quando esses “ratings” estão compreendidos no patamar mais elevado – entre ‘AAA’ e ‘A’. Esse custo aumenta para 3,12 pontos percentuais quando a classificação do crédito está já no segmento dos ‘B’ ou abaixo, denotando um grau muito mais elevado do risco de investimento.

“Quando um país é empurrado para o segmento ‘B’, está a caminhar cada vez mais para a insolvência e não consegue resgatar-se a si mesmo, precisa de ajuda vinda de fora”, disse Gärtner à Reuters. “As agências de ‘rating’ conseguiram afastar os mercados financeiros da percepção do problema, fazendo com que os governos pareçam os culpados”, acrescentou.

Um país oco é um país doente

Esta não pode ser a nossa sina. Este não pode ser o nosso calvário.
O governo tem que perceber, de uma vez por todas, que não pode prosseguir nesta senda de esvaziamento deste corpo nado há quase nove séculos.
Este corpo chama-se Portugal, mas podia, muito bem, chamar-se pelo nome de qualquer um dos leitores, de qualquer um de nós, ou de quem nos precedeu, construtores permanentes deste território que queremos forte e saudável.
Vêm estas considerações a propósito do ostracismo e do esvaziamento a que este governo de direita está a condenar todo o interior do nosso país. Quer subtrair-lhe os tribunais, as valências de saúde, as urgências e as freguesias. Quer permitir a monocultura do eucalipto e retirou os apoios fiscais às empresas do interior, entre um sem número de outros desvarios políticos que nos corroerão a alma e nos secarão o viver; nos sucumbirão, aos do interior, mas porventura matarão primeiro os construtores desta matriz de subdesenvolvimento, desta doença tumoral: macrocefalia do terreiro do paço.
E o resto? O que será o resto para estes arautos defensores deste modelo de desenvolvimento?
O que é facto é que o resto será um corpo seco, um território vazio uma árvore oca, corroída no seu interior, cujos ramos cairão, qual medievo afloramento de lepra.
O rumo tem que ser outro. É urgente que tratemos o nosso país tal qual tratamos o nosso corpo. Todas as suas partes são importantes, fazem falta e são necessárias para a criação de um espírito de coesão social e territorial.
Não são palavras vãs, estas. São palavras que fazem a diferença, que nos permitem mobilizar as pessoas, que nos darão o folego e o oxigénio capaz de nos fazer respirar para além de qualquer crise.
E os resultados das políticas que estão a ser seguidas começam a ser inequívocos de que o caminho está errado. Todos os dias somos surpreendidos com derrapagens na execução orçamental, com a desobediência do deficit a Passos Coelho e a Paulo Portas, com o aumento até ao infinito desse monstro incontornável do desemprego e sobretudo do desemprego jovem.
Para este governo de direita que consegue sempre mais um e mais outro “pote” para os seus indefetíveis, seja na EDP, na REN, na CGD, nas Águas de Portugal… de pouco importa que a pobreza esteja a aumentar ou que os nossos quadros mais jovens e criadores estejam a rumar ao estrangeiro com a sua bênção e aconselhamento.
Porém, mais cedo do que tarde o fogo vai chegar-lhes ao quintal!
Acácio Pinto
in: Diário de Viseu
[Foto: Museu de design e moda]

4º Beirão Socialista


Deixo ficar a capa do mais recente Beirão Socialista.
Espero que gostem.
Um abraço

O Terceiro Mundo em Viseu


"Só há cinco pares de calças de fogo para os 39 efetivos dos bombeiros municipais de Viseu. A denúncia foi feita, esta manhã, por Sérgio Carvalho, presidente do Sindicato Nacional dos Bombeiros Profissionias.
"Este equipamento deveria ser individual, mas estes bombeiros só têm cinco pares de calças disponíveis", afirmou Sérgio Carvalho. "Isto faz-se num país do terceiro mundo", lamentou o presidente do Sindicato Nacional dos Bombeiros Profissionias.
Numa conferência de imprensa, esta sexta-feira de manhã, também esteve o presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, Fernando Curto, que considerou a situação de Viseu "bastante caótica" e disse que o corpo de bombeiros profissionais deveria ter 60 elementos quando só tem 39.
"Há fardas rotas, equipamento deficiente, o quartel não tem condições de habitabilidade, além de viaturas com 42 anos", afirmou.
Fernando Curto lamenta que a Câmara de Viseu "ande há anos a fazer orelhas moucas" às reivindicações dos bombeiros." hoje no Jornal de Notícias

Depois de tanto se falar de uma imagem de "Marca" para Viseu, aqui fica uma de que ninguém se orgulha, que correu hoje o País e o Mundo. De facto o regozijo e arrogância patenteados perante as nomeações de "melhor cidade para viver", contrastam com o silêncio e apatia perante esta situação "terceiro-mundista". 
A indiferença da Câmara Municipal de Viseu perante esta calamidade no corpo de bombeiros municipais, demonstra desprezo perante os profissionais, e negligência perante a população que em caso de acidentes não tem o corpo de bombeiros municipais operacional para prestar socorro.

Na educação: Governo zero


Já não restam dúvidas sobre os objetivos das políticas na área da educação que este governo de direita tem vindo a tomar ao longo deste ano de governação. Aliás, o seu efeito está aí e está a ser conhecido da forma mais trágica e mais crua para milhares e milhares de professores que, de um momento para o outro, se veem confrontados com a perda de horário na sua escola, se veem confrontados com os designados horários zero.
E, por efeito dominó, teremos igualmente milhares de contratados, muitos deles há mais de uma década, a servirem portanto anualmente o sistema, que não encontrarão colocação e, assim, engrossarão a coluna dos desempregados.
Este é, pois, o resultado da “fórmula Crato”. O resultado de uma política que minuciosamente tem vindo a ser implementada: acabando com a Formação cívica, reduzindo as expressões e as tecnologias e as artes à ínfima espécie, aumentando o número de alunos por turma, “matando” as novas oportunidades, e o ensino de adultos que tentam implementar não tem qualquer hipótese de o ser em todo o território nacional face às condições exigidas para constituir uma turma.
E, face a tudo isto, o que faz Nuno Crato e os seus “ajudantes”? Não, não olham de frente o problema, não dizem as suas projeções, refugiam-se em complexidades do sistema para se esquivarem. Não digo que esfreguem as mãos de contentes, mas todas estas políticas têm uma forte componente ideológica. Uma componente que visa conferir ao saber e ao saber e a mais saber o centro de todo o sistema, sem se preocupar com o saber fazer, saber ser e estar, com a diferença, com a integração, com o ensino especial e com uma escola que tenha resposta para todos.
Porém, chegou a hora H. Não há mais fugas. As escolas lançaram os horários zero nas plataformas e eles são aos milhares. Os pais estão em desespero, os professores estão à beira de um ataque de nervos, os alunos estão inseguros… enfim, um cocktail explosivo que Crato, pedra a pedra, foi construindo e que vai explodir a curto prazo.
Se é bem verdade que Crato não implodiu o ministério da educação, como disse que era necessário, uma coisa é certa, ele está a implodir a escola pública e o serviço público de educação sem quaisquer escrúpulos. O desrespeito para com os demais atores educativos e para com as diretivas nacionais e internacionais é completo e começamos, até, a assistir a decisões judiciais e a recomendações do provedor de justiça que não deixam dúvidas sobre o rumo errado que está a ser seguido.
Tantos milhares de horários zero, só de um governo zero e de um ministro zero. Temos que mudar de rumo.
Acácio Pinto
in: Diário de Viseu / Jornal do Douro / Notícias de Viseu

A melhor cidade para viver…




Viseu, a vetusta cidade da Beira Alta, conheceu um epíteto, assaz justo mas … como “não há bela sem senão”… aqui se retratam algumas particularidades e peculiaridades!

Cidade-jardim por inerência, salpicada de cor e cortada por asfalto, contrastando o lado medievo com o traçado geométrico, prefigura-se numa paisagem de recorte harmonioso, encimada por uma catedral com um traço que radica no século XIII.

Um centro-histórico, com uma aparente acessibilidade garantida não atraiu gentes, nem potenciou os espaços a visitar.

É inequívoco o gradual abandono da antiga centralidade, fazendo sentir ao morador que resiste, o vazio e a desolação.

A noite invade as ruas e ruelas, trazendo uma vida fatalmente transitória.

No CBD (descaracterizado e pobre), o dia assemelha-se ao arrastar de uma população flutuante, que pontualmente ocupa lugares comuns e resilientes!

Assiste-se por vezes aos momentos efémeros no conteúdo e na forma que mudam a face, já de si gasta, da funcionalidade fragilizante dos resistentes. O exemplo de «Nuestros Hermanos» que de uma pedra fazem uma pérola, poderia ser o mote para uma mudança atrativa e radical…ou para a mudança que se impõe.

Espaço de um entrecruzar de cinco vias romanas, prolongado no tempo pelas vias rodoviárias, Viseu conheceu uma função comercial pujante! Se a obstaculização das taxas, aumentando a distância-custo, atira potenciais visitantes para outras paragens, um dos eixos de ligação mais pertinente - o IP3 - estagnou de forma atrofiante a ligação entre duas cidades fundamentais na rede urbana.

Na zona urbana, a circulação proporcionada pelas rotundas constituiu um remédio paliativo para o trânsito, possibilitando o escoamento dos fluxos de uma forma assertiva. Já o túnel… afigura-se de uma importância relativa e assaz dispensável.

A suburbanização e periurbanização trouxeram uma renovação às zonas envolventes, mas a falta de planeamento e de equipamentos de muitas delas, não trouxeram a qualidade de vida exigível, tornando-se em meros dormitórios.

Uma cidade descaracterizada pelo tempo, onde a destruição de espaços fundamentais, como a via-férrea, sem marcos históricos a assinalar a sua existência, transformou a funcionalidade deste espaço, passando ao desporto e ao lazer, também necessários, à melhoria da qualidade de vida.

Culturalmente a cidade revê-se em locais onde a história é contada  pelas marcas da memória, tendo momentos esparsos de teatro, música, dança, exposições. Performances… 

A oferta de espaços de lazer é consubstanciada na distribuição geográfica, verificando-se alguma dinamização, mas fica muito além da potenciação dos recursos.

Em conclusão: esta cidade poderia ter uma qualidade de vida anunciada, mas para isso era necessário dar mais relevo às pessoas, à qualidade de vida, à sustentabilidade e à valorização dos recursos endógenos e intrínsecos, sem deixar morrer a vitalidade do coração que a fez pulsar durante décadadas.


Rosa Ladeira

O Senhor das Rotundas, Regresso do Rei



Na semana passada, após ler uma entrevista de um autarca da nossa praça, ao diário As Beiras, empreendi algum tempo com ousadia e realizei uma breve reflexão sobre um tema complexo, o Poder! Político, local, central, autárquico, governamental, económico, financeiro, militar, bélico, etc…chega-nos diariamente a casa, através dos meios de comunicação social, nas suas mais variadas formas. Hoje irei centrar-me no político, ou pelo menos tentar, dado que eles se misturam, interligam e chegam a ser quase indissociáveis.

Podemos afirmar que ele se expressa nas diversas relações sociais, as quais também podemos apelidar de relações de poder. Consideremos também que onde existem relações de poder, existe política. Por outro lado, a política expressa-se nas mais diversas formas de poder, normalmente associada ao Estado, ela poder ser entendida num sentido mais amplo, não menos importante, noutras dimensões da vida social. Conceber actualmente que o poder reside no Estado, é um grande erro, pois existem relações de poder e estas estão presentes muito além do aparelho estatal. A promiscuidade crescente entre o poder político e o poder económico e financeiro, tem levado a que o primeiro permaneça constantemente refém do segundo. A permanência dos mesmos protagonistas por anos consecutivos, leva a que estas relações se intensifiquem e aprofundem, com os resultados que todos conhecemos, que raramente são em benefício da população, do todo, mas sim do singular. Não foi ao acaso que Ronald Reagan afirmou que inicialmente julgava que a política era a segunda profissão mais antiga do mundo, mas que aos poucos ele percebia que ela se parecia mais com a primeira. A estes factos não ficou indiferente o legislador, que pensou a lei de limitação de mandatos para tentar impedir estas ligações perigosas e continuadas entre o poder político e alguns poderes económicos estabelecidos na região. Quantos de nós não conheceram de perto, através de pessoas próximas, de “concursos-fantoche” para admissão de pessoal? De relações menos transparentes com empresas? De favores e benefícios à margem da lei? Quantos foram provados e tiveram consequências efectivas para os autores? Vive-se num clima de total impunidade, em que perante a inexistência de Justiça, se procura agir legislando preventivamente. Dadas as limitações da acção preventiva para a plena eficiência pretendida, podemos considerar que é um bom principio que deverá ser complementado urgentemente.

A permanência em cargos de poder, por demasiados anos, leva a uma leve, ou profunda, “demência” em que, inconscientemente ou conscientemente (dependendo dos actores),  julgamos a “coisa pública” que gerimos como sendo já propriedade nossa. Poderia enumerar aqui alguns casos, incluindo alguns locais, cuja conduta deixou transparecer este mesmo sentimento de posse e autoritarismo exacerbado. Sabiamente, Lincoln dizia que a melhor forma de testar o carácter de um homem, seria dar-lhe poder, essa coisa que vicia e nos molda o pensamento, e desenganem-se os incautos, porque isto de mandar não é uma coisa fácil. Isto de liderar não é para todos e exige uma estrutura mental e de princípios que poucos alcançam. Talvez por isso, sejamos diariamente confrontados com declarações e atitudes, ao nível das ditaduras africanas ou da América Latina. Quando se afirma publicamente que existem cidadãos dispensáveis ou que se vai deixar a indicação de 2 ou 3 nomes para a sucessão, ultrapassa-se tudo o que é aceitável numa sociedade em vivência democrática e leva-nos a recuar a tempos passados que não queremos relembrar. O considerar a lei um “castigo” e fazer depender o regresso em 2017 unicamente da própria vontade, dando a eleição como garantida, mergulha num egocentrismo e narcisismo a roçar o caso clínico.

Chegou, definitivamente, o tempo da mudança. Honrar a obra feita por quem sai, e quem entra, atentar aos erros cometidos e ao que ficou por fazer. Acabe-se de uma vez com este pensamento “esquizóide” e narcisista dos políticos da nossa praça, que se consideram insubstituíveis e senhores absolutos da competência e da razão. São eles ou a catástrofe! Falam quase diariamente em empreendedorismo e das novas gerações com a melhor preparação de sempre, as mesmas a quem não dão oportunidade de mostrar o seu valor e de também fazer obra. Quantos dos nossos decisores políticos que dão palestras sobre o tema, já foram empreendedores? Que obra já criaram fora da política, em igualdade de oportunidade com qualquer outro cidadão? Se são assim tão valorosos e imprescindíveis, têm agora a oportunidade de o provar, através dos apoios e programas que propagam constantemente aos cidadãos. Aventurem-se no sector privado sem apadrinhamentos políticos, ou até quem sabe, emigrem!!


Permitam-me terminar com uma utopia, porque o sonho e a fantasia fazem parte do homem. Recue-se aos princípios da República e entenda-se o exercício de cargos de poder como um contributo cívico temporário, um acto fraterno e solidário para com a sociedade!

Misericórdias à beira de um ataque de nervos


Instituições seculares, as misericórdias têm como lema, desde a sua fundação, estar o mais próximo de quem precisa de ajuda sem exigir contrapartidas.
E essa tem sido a força motriz que tem feito destas instituições um porto de abrigo físico e espiritual para muitos portugueses menos bafejados pela vida.
E se o estado, em tempos bem datados, olhava para as misericórdias como instituições com práticas assistenciais e de caridade, nas últimas décadas passou a considerá-las como importantes parceiros para cumprir os preceitos constitucionais de dignidade e de proteção social dos portugueses.
E foi assim que as Misericórdias desenvolveram a sua rede de equipamentos nas diferentes áreas de apoio social, como creches, centros de dia, lares e unidades de cuidados continuados, entre outros. E esta rede teve, nos últimos anos, nomeadamente até há um ano atrás, um impulso como nunca antes havia visto, como se pode constatar em todo o país.
Porém, neste último ano, nesta governação de direita, do PSD e do CDS, as coisas não têm estado a correr da melhor maneira para as misericórdias. E não é porque os seus dirigentes não estejam movidos pelos mesmos ideais de sempre. Não é porque os seus dirigentes tenham esmorecido. Não, não é por nada disso. A causa está nas políticas e nas opções do governo.
E pudemos constatar isto mesmo numa reunião que realizámos, esta semana, no concelho de Mortágua, com representantes do secretariado das Misericórdias do distrito de Viseu. Há atrasos, de meses, nos pagamentos das contratualizações com a saúde e com a segurança social/POPH/Finanças há atrasos no reembolso do IVA e no pagamento de autos de medição de obras em curso e um enorme diferencial entre as respostas efetivas que estão a ser prestadas e as respostas protocoladas com os serviços distritais e regionais do estado, só para dar alguns exemplos.
E, é bom de ver, o efeito é o da descapitalização destas instituições que, em alguns casos, já começaram a fazer despedimentos de pessoal, um pouco por todo o país. Ou seja, o governo começa a fragilizar e a colocar em pré-falência instituições que cada vez são mais necessárias para apoiar as pessoas que diariamente veem a sua situação agravada com as medidas de austeridade de que este governo está a abusar.
Está claro que esta situação não se restringe às misericórdias mas é extensiva a todas as instituições de solidariedade social.
Está na hora, pois, de o governo olhar para este problema, de frente e tomar medidas concretas que evitem o colapso do setor da economia social cuja importância é demasiado elevada para que dele possamos prescindir. Amanhã pode ser tarde.
Acácio Pinto
in: Notícias de Viseu

Um salto em frente ...


União bancária, estímulo ao investimento, desenvolvimento da união política e económica… A cimeira dos dias 28 e 29 de junho deveria voltar a dar fôlego à Europa, estima o colunista Bernard Guetta. Pena que os seus atores pareçam mais contabilistas a gerar a urgência do que visionários.



O mínimo que se pode dizer é que não há nenhum Victor Hugo entre os 27, nem um Schuman, um Monnet ou um Churchill. Quando era tão necessário um sopro visionário e um estadista que desse novo sentido, um horizonte, um objetivo mobilizador à construção europeia; quando era tão desejável reconstruir a União em termos de Verbo, para lhe fixar novas metas num novo século – este Conselho Europeu apenas deu à luz acordos arrancados a ferros sobre acertos técnicos e menos fadados a empolgar os corações do que a provocar enxaquecas.
A União não tem dirigentes políticos, tem assessores contabilísticos, mais nada... É assim, é o que temos e, já que vai ser preciso traduzir todas as decisões europeias para uma língua europeia inteligível, traduzamos este Conselho em francês [no original], dizendo que o balanço da etapa é, em última análise, bom ou muito bom.
Real transferência de soberania
Onde havia apenas rigor e cortes de despesa, haverá finalmente aumento do investimento comum, já que os 27 aceitaram interinamente um "pacto de crescimento" que irá mobilizar 120 mil milhões de euros, para olear uma máquina económica à beira de gripar. Os termos do debate político mudaram na União e, embora isso não vá produzir milagres imediatos, seria errado subestimar esta inflexão. E não é tudo, longe disso.
Este Conselho também abriu o caminho para uma união bancária, de que a UE se vai dotar para regular os seus bancos, organizar a sua supervisão, garantir os seus depósitos e espaldar assim com todo o peso europeu os bancos nacionais, a fim de que nunca mais um Estado tenha de enfrentar sozinho as dificuldades da Banca e de endividar-se para a apoiar. Eis uma real transferência de soberania, que vem, simultaneamente, dar à União os atributos de um Estado e reforçar cada um dos Estados-membros no meio da presente tempestade financeira. Em língua europeia, parece quase nada. Em francês, é muito, mas ainda não é tudo.
Um avanço decisivo
Mais importante ainda, os 27 aprovaram também o relatório sobre o aprofundamento da integração económica e política que pediram aos presidentes do Conselho, da Comissão, do Eurogrupo e do Banco Central. E encarregaram-nos de formular propostas de medidas para seis meses. Em francês, significa que a União vai agora entrar na via de uma política económica comum, de um Tesouro comum e de uma corresponsabilização pelos empréstimos, o que, somado à moeda única, reforçará ainda mais o aspeto de verdadeiro poder público – um Estado federal em curso.
Algo de decisivo está a tomar forma, tanto mais decisivo quanto a Espanha e a Itália, apoiadas pela França, obtiveram ontem à noite a possibilidade de o fundo europeu de solidariedade financeira da União, o Mecanismo de Estabilidade, ajudar diretamente os bancos nacionais e, principalmente, de subscrever empréstimos de países, como elas, cumpridores mas em dificuldades. Tiveram, para tal, de ameaçar bater com a porta. O embate foi duro, mas a solidariedade financeira e a corresponsabilização pelos empréstimos (“mutualização”) foram, de facto, adotadas pela União, quando os seus tratados as impedem e a Alemanha não as queria de maneira nenhuma. Victor Hugo não esteve lá, mas a Europa está a ganhar músculo.

Renovar a Esperança e Vencer


"A nossa economia tem de crescer e entrar nos mercados com bons trunfos – por exemplo, a marca Europa e as ideias de uma juventude bem preparada.
O grande objectivo da economia portuguesa para a próxima década é o do crescimento convertido em desenvolvimento e por isso necessariamente harmonioso, de distribuição equilibrada do rendimento nacional e associado ao aumento do nível e da qualidade de vida de toda a população. Uma boa parte dos portugueses acredita que tal anseio está ao nosso alcance, sendo a inovação um dos argumentos mais recorrentemente invocados como essenciais para aquele efeito.
Antes, porém, é crucial entender-se a relação da inovação com as diferentes dinâmicas empresariais e sectoriais - emprestando valor determinante aos processos produtivos, à tipologia de produtos e aos padrões de competitividade vigentes nos mercados-alvo - tendo como pressupostos um tecido institucional e empresarial competente, uma sociedade responsável e responsabilizável, mão-de-obra e gestão empenhadas e qualificadas e um ambiente favorável à reorientação estratégica da economia portuguesa para a exportação.
Para isso é fundamental garantir a manutenção da presença portuguesa nos mercados externos tradicionais e sobretudo angariar novos clientes nas economias (China, Canadá, EUA, Brasil, Índia, Coreia, Rússia, México, Egipto, Turquia e Taiwan) que na próxima década terão taxas de crescimento mais expressivas e maiores potencialidades de procura de bens posicionais, isto é, bens cujo uso privado tem significado social relevante.
Portugal não tem desfrutado de vantagens apriorísticas relevantes nos seus mercados de exportação tradicionais, mas tem, aqui e agora, para diversas áreas da sua especialização, a vantagem inquestionável de poder utilizar marcas que garantam a origem europeia, beneficiando do facto incontornável de a Europa ser mundialmente considerada uma grande referência cultural, social e histórica.
Sem diferenciação não há posicionamento efectivo e só este pode ser o trunfo para o reforço das vantagens, o que, no caso vertente, aconselha a cobertura da origem europeia por outros factores concorrenciais relevantes, que podem ir desde o design à tecnologia, passando pela promoção, qualidade e embalagem, mesmo que fazendo apelo à originalidade ou à tradição, num contexto em que a competitividade empresarial dependerá crescente e essencialmente dos contributos das funções de produção (sendo determinante o projecto), comercialização (na óptica de marketing) e aprovisionamento.
Sendo as PME o pilar nuclear da actividade económica do nosso país, é fundamental atacar, desde já, as suas reconhecidas fragilidades genéricas, uma vez que o país possui hoje um potencial considerável para a sua reversão. De facto, ultrapassado o estigma das anquilosadas "virtudes de ser português", Portugal dispõe actualmente de uma população jovem e educada - com ensino superior e pósgraduado - que é detentora de um conjunto de competências técnicas, conhecimento científico, ambição de vencer, disponibilidade e capacidade competitiva, oferecendo ainda um riquíssimo potencial de formação de redes mobilizadoras e facilitadoras da constituição das diferentes massas críticas indispensáveis para o sucesso na nova economia global e em mercados mundializados.
Muitos dos nossos jovens só esperam a oportunidade de pôr em prática as suas capacidades, sendo também eles os depositários da resposta para a carência maior e mais actual dos portugueses: a da ambição de descongelar a esperança e de vencer nos novos e incontáveis desafios vindouros."