Um ano depois ...



Um ano depois de o atual Governo ter entrado em funções, todos os portugueses sentem - e o próprio Governo reconhece - que tudo está muito pior do que antes. A culpa não é só das políticas do Governo. É, fundamentalmente, da crise global que aflige a União Europeia no seu conjunto. Como sempre escrevi, nestas crónicas, mesmo no tempo do anterior Governo e que o PSD então não gostava de ouvir. Porque os dirigentes europeus, na sua esmagadora maioria, ultraconservadores e neoliberais, partidários de uma globalização desregulada, aceitaram sempre que os mercados estivessem acima dos Estados, assumindo por inteiro a ideologia neoliberal, principal responsável pela crise global e múltipla que nos afeta.
A circunstância de o Governo, há um ano eleito, ser constituído na sua maioria por neoliberais convictos - que celebraram a vinda da troika como um bem supremo, cujas políticas devia respeitar e ir além delas, como sucedeu - não só teve como consequência diminuir consideravelmente um país, com quase nove séculos, transformando-o num protetorado da troika, como, sem estratégia nem bom senso, se ter lançado em políticas de pura austeridade. Resultado: os cortes e cada vez mais cortes estão a destruir o Estado Social e o Estado de bem-estar e a conduzir o País para uma recessão económica profunda, ao empobrecimento de boa parte da população e ao flagelo do desemprego, numa proporção nunca vista.
Um ano depois desta política, de terrível austeridade, Portugal vai enfraquecendo dia a dia, sem explicações prévias aos portugueses, nem qualquer diálogo consequente com os Partidos e os Parceiros Sociais. Assim, o Governo está a ficar cada vez mais isolado e o descontentamento contra ele, vindo de todos os sectores, começa a ser muito grande. Não se iluda o Senhor Primeiro-Ministro e o Governo quanto à paciência dos portugueses que, com efeito, tem sido grande, ou com os elogios (interessados) da troika. A continuar assim, tudo lhes vai, inevitavelmente, cair em cima. E de que maneira!
D. José Policarpo, Patriarca de Lisboa, na homília que proferiu na Sé de Lisboa, no dia 7 deste mês, feriado do Corpo de Deus, disse com a sua lucidez e prudência habituais: "É preciso que os líderes europeus mantenham a dignidade da pessoa humana no centro da resposta à crise." E acrescentou: "A solução só será encontrada com uma revolução cultural." "Porque no centro das preocupações da Europa deveria estar a pessoa humana na sua dignidade e na sua vocação de fraternidade." E o porta-voz da Conferência Episcopal, D. Manuel Morujão, esclareceu: o Cardeal-Patriarca referia-se "às soluções economicistas, vistosas e pouco duradouras, adotadas pelos Estados da Zona Euro, incluindo Portugal". E conclui: "Temos de seguir por um caminho que dê primazia à pessoa humana e aos valores e não seguir o caminho economicista dos nossos dias".
D. Januário Torgal, Bispo das Forças Armadas, e D. João Lavrador, Bispo Auxiliar do Porto, pronunciaram-se no mesmo sentido, visando aliás o atual Primeiro-Ministro, Passos Coelho. Temos que ultrapassar - disseram - os tempos de austeridade.
Aliás, membros ilustres do PSD, reclamando-se da social-democracia, como Manuela Ferreira Leite, Rui Rio, Pacheco Pereira, entre outros, também se têm pronunciado contra as políticas de austeridade, que estão a empobrecer os portugueses, sem remédio e ignorando a dignidade dos cidadãos e uma política de valores.
O PP, membro da Coligação do Governo, salvo algumas raras exceções, tem-se mantido silencioso. Mas como a sigla CDS voltou a ser utilizada, a política social da Igreja vai, necessariamente, reaparecer, no momento político que pareça ao líder do CDS/PP ser o mais oportuno.
O PS, que tem cumprido o primeiro compromisso com a troika - onde isso vai, depois de um ano, em que tudo tem mudado consideravelmente? -, também tem vindo a opor-se às medidas de austeridade e às chamadas "privatizações" (melhor dito: às vendas ao estrangeiro), afirmando, pela voz do seu Secretário-Geral, a necessidade imperativa do crescimento económico e da luta contra o desemprego.
O Governo, portanto, não vai contar com o PS, para correr em seu auxílio. Nem com os Sindicatos e os outros Parceiros Sociais. Resta-lhe, portanto, ou mudar as políticas de austeridade (o que é contrário a tudo o que fez até agora) ou sujeitar-se a um isolamento político, que lhe será fatal. Um dilema que não augura nada de bom, nos próximos meses, para o futuro deste Governo.

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