Gabriel Nadeau-Duboisé, um Daniel Cohn-Bendit dos anos 2000


"Semeámos a semente de uma revolta que poderá não brotar já"
Gabriel Nadeau-Duboisé

Quem diria que uma luta contra o aumento das propinas podia ter tamanha importância? A questão ameaça paralisar o estado canadiano do Quebeque e até há quem fale em eleições antecipadas. Rondas e rondas de negociações já falharam.

No meio de tudo isto, uma figura sobressaiu: Gabriel Nadeau-Dubois, 21 anos, porta-voz da que é considerada a mais radical das associações de estudantes do estado, a CLASSE (Coalition Large de l'Association pour une Solidarité Syndicale Étudiante, que representa 70% dos estudantes do Quebeque que estão em greve há mais de 100 dias).

O porta-voz tornou-se o assunto das notícias. Não só pelo cabelo ou os fatos impecáveis, mas também pelo que diz, e como o diz. Ele não quer só lutar contra o aumento das propinas. "Semeámos a semente de uma revolta que poderá não brotar já", disse. "Começámos a construir uma muralha contra a austeridade e as ideias neoliberais", garante, ora num popular talk-show da TV do Quebeque, ora num jornal europeu de referência.

O aumento do valor das propinas de 325 dólares canadianos (253 euros) extra por ano até 2016, quando o valor anual chegaria a 3800 dólares canadianos (quase 3000 euros) é a primeira batalha de Gabriel Nadeau-Dubois. Mas a guerra é contra o Governo e as ideias neoliberais. "Esta luta não é estritamente de estudantes. É parte de uma luta mais alargada", sublinha.

Os perfis na imprensa notam que Nadeau-Dubois está longe de ser um pobre estudante à beira do endividamento: estudou num liceu privado e ganhou uma bolsa choruda que lhe permite não ter de trabalhar durante o curso.

Por outro lado, nasceu e cresceu numa família de activistas: o pai era sindicalista. "Desde os meus dois, três anos que ia a manifestações com o meu pai", conta. "Também fui a assembleias sindicais quando era novo. Era suposto fazer os trabalhos de casa, mas estava a ouvir".

O trabalho sindical não o distraiu da escola o suficiente para não ser um aluno de excelência. Está no terceiro ano do curso de História, e até à greve sempre cumpriu a assiduidade a que está obrigado para não perder a bolsa.

Nadeau-Dubois insiste que não é líder, apenas porta-voz: "Não tenho poder de decisão e não o quero ter. Sou apenas uma correia de transmissão" da opinião dos elementos do CLASSE, que pratica a "democracia directa", inspirado no movimento Occupy. 

"Dir-se-ia que é um político nato, o mais Daniel Cohn-Bendit dos líderes estudantis", comentou à AFP Antoine Robitaille, jornalista do diário Le Devoir, referindo-se à figura do Maio de 1968. "Claro, um Daniel Cohn-Bendit dos anos 2000, ele não apela directamente à revolução".

Uma greve longa
Muitos estudantes estão, por causa da greve, a arriscar-se a perder o ano escolar - e Nadeau-Dubois pode não só a perder o ano, como a sua bolsa. "Os estudantes decidiram ir até ao fim, fazer o sacrifício que tem de ser feito para ter a certeza de que a educação é acessível a todos".

Mas a luta já vai longa e isso tem os seus custos. Alguns alunos recorreram aos tribunais para conseguir assistir às aulas. Gabriel encorajou os estudantes estudantes-contestatários a formar piquetes para impedir os outros estudantes de regressar às aulas; e está a responder em tribunal por isso, arriscando mesmo uma pena de prisão.

O porta-voz criticou a "veemência com que o outro lado" sugere esta pena, uma pena de prisão: "Vamos esperar que este não seja um ajuste de contas político, isso seria muito triste."




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