Governo:- Verdade e transparência, ou aldrabices sucessivas?


Quem ainda não perdeu a memória das razões próximas da crise política que levou à queda do anterior Governo do PS, recordará que ela foi provocada pela recusa do acordo do PSD e do CDS do PEC IV, com a alegação de que continha medidas excessivamente gravosas para os Portugueses e, sobretudo, porque o Governo ocultara o PEC IV ao PSD antes do seu envio para Bruxelas.


Essas eleições, do meu ponto de vista, seriam sempre inevitáveis em função da Crise Financeira Internacional e de erros de gestão da mesma cometidos pelo Governo de então, mesmo se foi a isso influenciado pelas sucessivas e contraditórias orientações assumidas nos Conselhos Europeus, como por exemplo as de 2008 no sentido do aumento do investimento público para combater a crise iniciada nos Estados Unidos.


Logo na altura da pré-campanha ficou a saber-se, por revelação de Passos Coelho em entrevista na Televisão, que afinal José Sócrates antes de ter enviado o PEC IV para Bruxelas teria estado reunido na tarde anterior com Passos Coelho a discutir o documento, para além de ser do conhecimento público, do PSD e do Presidente da República que esteve em Portugal uma Missão Europeia a acompanhar e a discutir com o Governo Português a elaboração das medidas a Incluir naquele PEC.


Desta primeira fuga à verdade do agora primeiro-ministro Passos Coelho, surpreendentemente pouco se falou na Comunicação Social em contraste com situações idênticas de José Sócrates. Mas deveria ter ficado o aviso.


E depois foi o que se viu. Ao PEC IV, recusado por Passos Coelho por exigir excesso de sacrifícios aos Portugueses, o que o actual Governo lhe fez suceder está exigir muito mais e está a fazer cair um número assustador de Portugueses na miséria e desespero, fazendo parecer o que estava previsto no PEC IV um rebuçado em comparação com o purgante dos programas de estabilização orçamental deste Governo.


E esta parte gaga do corte dos subsídios de Férias e Natal dos Funcionários Públicos e Aposentados/Pensionistas que nunca aconteceria segundo as declarações de Passos Coelho em campanha eleitoral (basta ir ao Youtube para quem queira confirmar), que depois passou a ser um corte directo de 14,4% no rendimento anual dos atingidos, apenas para 2012 e 2013, mas que agora já vai até 2018, e só como perspectiva técnica (leia-se já eram).


E agora, como cereja em cima do bolo da inverdade, descaramento e manipulação política, vem o Governo enviar para Bruxelas o seu DEO, Documento de Estratégia Orçamental para 2012-2016, sem qualquer discussão prévia com os partidos da oposição, nomeadamente com o PS com quem assinou em conjunto o acordo com a TROIKA. Mas, pasme-se, envia depois para a Assembleia da República um documento que não contém os dados mais gravosos que enviou para Bruxelas, nomeadamente os referentes aos dados do desemprego e às previsões de agravamento do mesmo.


E com aquele seu eterno jeito de “sonsinho” lá vem o impagável Ministro da Finanças justificar-se de que os dados estatísticos não devem estar certos e há que os rever.  Isto é se a infeliz verdade dos números do desemprego não convém, muda-se essa verdade, para nos ser (ao Governo), mais favorável.


Esta falta de consideração pela inteligência dos Portugueses, mais do que patética é dramática nos momentos que se vivem hoje. O País tem a noção de que se viveu tempo demais acima das posses, não antecipando a possibilidade de uma crise mundial, ainda que motivada pelos grandes especuladores financeiros, nos retirar a margem de manobra.


Mas senhores governantes, basta de atirar para os anteriores as causas de todas as dificuldades, sobretudo quando se diziam tão bem preparados para Governar e ter soluções para todos os problemas.


E não se venha agora com a teoria requentada “ amanhãs que cantam” tão do agrado dos partidos Comunistas antes da queda do Muro de Berlim e da União Soviética, fazendo crer que os sacrifícios de hoje com a recessão que vivemos serão compensados com um crescimento de 0,1% ou 0,2% nos próximos anos. É que em 2011 e 2012 0 PIB português acumulará uma queda de 5,5%, o que nos colocará numa situação próxima daquele em que vivíamos acerca de 20 anos. O que quer dizer que a prometida recuperação será uma miragem para o comum dos Portugueses.


E se falarem em ver a luz ao fundo do túnel certifiquem-se de que ela não é a do comboio que vem a toda velocidade em sentido contrário ao nosso.


Senhores Governantes sejam sérios, não digam aldrabices, e não manipulem (como Noam Chomsky tem razão, na sua descrição da manipulação mediática) para não retirarem a pouca esperança no futuro que resta aos Portugueses.   


P.S.- Já depois de escrito o texto o Governo fez chegar ao parlamento os dados que tinha enviado para Bruxelas. Embora tarde, o que não abona ao seu desempenho, chegou à conclusão que tinha dado um tiro no pé por que o ditado “em terra de cegos quem tem um olho é rei” não era aplicável ao caso.

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