François Hollande, o sonho e a realidade


A alegria. A alegria imensa. Ver fechar-se um parêntesis, dissipar-se uma maldição. E de que maneira! François Mitterrand não foi uma anomalia da história mas o primeiro Presidente de esquerda. E há agora um segundo: François Hollande. Para a esquerda, 2012 faz renascer 1981, dá vida e cor a essas imagens envelhecidas, sépia, que pareciam condenadas aos livros de História. Memórias íntimas dos velhos ou novos que então éramos.  

Este 2012 também apaga o 21 de abril de 2002, essa queimadura, essa ferida [nas presidenciais desse ano, o candidato socialista Lionel Jospin ficou em terceiro na primeira volta, pelo que a segunda volta foi disputada entre Chirac (direita) e Jean-Marie Le Pen (extrema-direita)]. Dez anos depois, está reparado o traumatismo de, uma noite, ter visto a esquerda ser riscada da paisagem política francesa.

O que é votar à esquerda? É dizer que, apesar do individualismo das sociedades contemporâneas, existe um “nós”. Que ideias como justiça, igualdade, partilha e solidariedade podem e devem organizar a vida pública. Como essas instituições e esses bens públicos, criados pelo Conselho Nacional de Resistência, que são anteriores a nós e nos sobreviverão depois de nos moldarem. Que é possível, por isso, ir contra os valores da época para fazer viver aquilo que nos une, em vez de seguir a inclinação natural, ouvindo a vozinha que fala em cada um de nós e nos incita a viver a nossa vida defendendo apenas os interesses individuais.
Numa França à beira do abismo, que podia ter escolhido barricar-se atrás das fronteiras da fantasia a recordar o seu passado, a vitória de François Hollande demonstra que o país preferiu a esperança. Olhou para a frente e não para trás. Saboreemos este momento em que um povo decide fazer uma tal escolha. E olhar o futuro.

Porque esta é a tarefa que espera François Hollande. Reparar o país, certamente. Refazer a sociedade, evidentemente. Reduzir as desigualdades de destino entre os franceses, sejam eles quem forem e venham de onde vierem. Mas, para que tudo isto seja possível: sobretudo, desenhar o futuro. Mostrar que a França não é apenas um património, uma história, um grande passado. Que pode, também, projetar-se no futuro e reinventar-se.
Esta página em branco, inquietante em muitos aspetos, exaltante em muitos outros, tem de começar a ser escrita. De maneira resoluta, imperativa, para não dececionar este voto e a confiança que ele ainda manifesta na capacidade de mudar as coisas da política, ainda que não possa mudar a vida. O trabalho mal começou e vai ser difícil, já a partir de amanhã. Mas hoje, sejamos felizes e vivamos plenamente este feliz mês de maio.

Sem comentários:

Enviar um comentário