Esquerda Vs. Direita

"Num mundo em que tudo parece mudar rapidamente, alguém me observou, no outro dia, que a única coisa que permanece imutável é o pensamento político, com a eterna divisão, desde os tempos da Revolução Francesa, entre a esquerda e a direita, entre aqueles que defendem os mais desfavorecidos e apregoam a mudança - a esquerda, e os que apelam à conservação do statu quo, bem como a manutenção das regalias de quem está no poder - a direita. Desde essa altura, quem é de esquerda - quem como a personagem de Graham Greene em "The Secret Agent", o académico que alinha pelos republicanos na guerra civil espanhola - põe-se do lado dos que sempre tiveram direito à fatia mais pequena da torta. 

Já quem defende a conservação da riqueza e quem está habituado a servir-se da maior parte da torta é de direita. É portanto o pensamento político um mundo sem inovação, alheio às profundas alterações de tudo o que acontece ao seu redor? Não penso que assim seja. Acho até que, pelo contrário, a globalização teve efeitos profundos no pensamento político, principalmente na Europa, onde felizmente não se sofre do fundamentalismo religioso que contamina grande parte do pensamento de direita nos Estados Unidos. A maior parte das questões sociais que continuam em debate na América são por cá reconhecidas como conquistas fundamentais da evolução da sociedade. Isto tem a vantagem de permitir que a discussão se concentre naquilo que continua realmente a fazer sentido. É como distribuir a torta de que falava Greene. E é justamente nesse ponto que, numa perspectiva global, as causas defendidas tradicionalmente pela esquerda e pela direita aparecem hoje como completamente invertidas. Com efeito, a globalização tornou-se actualmente o arqui-inimigo da esquerda tradicional, que atria comícios, manifestações e cartazes contra ela onde quer que haja uma conferência internacional. 

Mas porquê tanto ódio à globalização? Para manter o mundo ocidental como está? 

Então combater a globalização significa essencialmente manter as coisas como estão, combater a mudança inevitável e manter intocáveis os privilégios de quem vive na parte do mundo que durante 500 anos tem explorado a outra parte, privilégios esses em grande medida conquistados precisamente à custa dessa exploração. Ou seja, é-se contra a globalização, logo de esquerda, por todos os motivos e tiques durante tantos anos associados à direita e ao pensamento conservador. O que a globalização significa hoje em dia é que grandes partes do planeta tradicionalmente exploradas pelos países ocidentais acordaram por fim e aprenderam a jogar o nosso jogo, com as nossas regras - por vezes levadas ao extremo, é verdade, mas não o fizemos nós também antes deles? Diz-se que a China explora a mão-de-obra barata e que aí se trabalha em condições quase desumanas. Mas podemos nós, europeus, que construímos grande parte da nossa riqueza à custa da escravatura - a invenção que permitiu a primeira globalização, com a exploração do Novo Mundo pelos europeus - apontar o dedo? Dizemos que nas indústrias têxteis na Índia se trabalha 12 horas por dia, ou mais, com ordenados miseráveis. Mas não era assim na Europa, e também nos EUA, até há algumas dezenas de anos? Fomos nós que fizemos as regras e não nos podemos queixar se agora aparecem outros jogadores dispostos a aplicá-las, com um empenho e uma vontade que nós já não temos, para terem por fim direito àquilo que consideramos indispensável. Mais vale encarar a situação de frente: uma consequência inevitável da globalização será que os países ocidentais, e a Europa em particular (já que foi mais longe nas regalias que os EUA) terão de abrir mão de muitos dos privilégios que conquistaram à custa da riqueza acumulada ao longo de séculos pela exploração do resto do planeta - da semana das 35 horas de trabalho (uma invenção da esquerda tradicional francesa), aos 40, e por vezes 50, dias de férias pagas por ano, ao direito irrevogável ao emprego para toda a vida. Enquanto isto o nível de vida dos trabalhadores em países como a China e a Índia continuará a aumentar, talvez de uma forma lenta, seguramente com muitas injustiças na distribuição da riqueza, mas a aumentar. De acordo com as previsões do Banco Mundial, o crescimento económico global em 2011 será praticamente todo à custa dos países emergentes, e nos próximos anos estes continuarão a crescer o dobro dos países ocidentais. O PIB per capita da China, que em 1979 era apenas de 400 dólares e em 2003 ainda só de 1000, ultrapassou em 2010 os 6500 dólares, um valor ainda muito baixo mas que se esperava que fosse atingido apenas em 2020 - e que significa apesar de tudo que 1/5 da população mundial aumentou o seu rendimento 16 vezes em 20 anos, seis vezes nos últimos sete anos. 

No futuro próximo o Ocidente acumulará menos riqueza e terá menos privilégios e benesses (por muitas manifestações em defesa de direitos adquiridos que sejam organizadas), o ex-terceiro mundo acumulará mais, já que trabalha mais e é mais competitivo, e distribuirá por sua vez mais privilégios pela sua população, até se atingir um relativo equilíbrio na distribuição global da riqueza, de que nos tempos mais próximos apenas África, infelizmente, parece ficar de fora. Em resultado disto, a torta global fica mais bem distribuída, os ricos perdem privilégios e os mais desfavorecidos ganham-nos, compensando uma injustiça de 500 anos. Paradoxalmente, quem mais defende esta situação hoje são os que são a favor de um mercado mais livre, defendem o fim de barreiras e proteccionismos exagerados, subvenções injustas a empresas e sectores europeus que os mantêm artificialmente competitivos face a empresas de outros países - em grande parte os partidos ditos liberais, associados ao espectro tradicional de direita. 

Quem se opõe a esta evolução são os tradicionais partidos de esquerda, os sindicatos e os movimentos antiglobalização, todos no tradicional espectro da esquerda. Por isso mesmo, a direita liberal aparece claramente como a nova esquerda. "Right is the new left." E depois não venham dizer que no pensamento político não há inovação."

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