O colapso do comércio tradicional em Viseu




Ao longo dos últimos anos, têm-se sucedido as notícias sobre o desaparecimento de lojas emblemáticas da Cidade de Viseu. Na semana passada, foi a vez da Pastelaria Horta.

Como é consabido, a situação do comércio tradicional é dramática não só em Viseu, como em muitas outras Cidades.

Muitos dirão, de forma simplista, que as dificuldades do momento presente implicam uma drástica diminuição do poder de compra e que, por isso, o comércio e os comerciantes são naturalmente atingidos pela crise. De facto, é inegável que a crise afectou todos os Portugueses e, naturalmente, o comércio não escapou aos seus efeitos. Ainda assim, não me parece que as causas do encerramento compulsivo do comércio tradicional radiquem apenas e tão-somente na crise (inter) nacional.

Desde logo, o colapso do comércio tradicional radica, muitas das vezes, na própria gestão “tradicional” destes estabelecimentos. Errados processos de organização, fraca diversificação da oferta, dificuldades de competitividade derivadas de um comércio de “pequena escala”, ausência de divulgação e fraca promoção dos serviços são seguramente erros que condenaram muitos dos comerciantes “tradicionais” (em Viseu e no mundo).

Por outro lado, creio que há também políticas públicas que podem ter tido influência (mais ou menos directa) no colapso do comércio tradicional em Viseu.

Em primeiro lugar, julgo que não há como não relacionar o declínio do comércio tradicional (não só em Viseu, como em muitas outras Cidades) com o surgimento de grandes superfícies comerciais (não se trata de uma crítica, mas de uma mera constatação). Ao longo dos anos, foi-se enraizando a ideia coletiva de que Cidade que não tivesse o seu grande centro comercial não era “Cidade” digna desse nome.

Viseu, como não gosta de ser uma Cidade “fora de moda”, aderiu entusiasticamente à “moda” dos grandes centros comerciais. Por isso, foi com naturalidade que o Fórum Viseu e o Palácio de Gelo se tornaram o centro do comércio e de encontro dos Viseenses. Com estes novos “pólos”, os Viseenses começaram a deslocar-se preferencialmente a estes locais para “passearem” e efectuarem as suas compras (fizeram-no não só porque é mais fácil encontrar tudo num só espaço, como pelos preços mais reduzidos que o comércio “em grande escala” pode oferecer).

Infelizmente, em simultâneo com a afirmação da hegemonia das grandes superfícies comerciais, o comércio tradicional foi perdendo o seu fulgor. O “centro” de Viseu deixou de ser o ponto de encontro (e de compras) privilegiado dos Viseenses e passou a ser um sítio de mera passagem/passeio, condenado a uma “morte” prolongada e silenciosa.

É óbvio que, para além do monopólio das grandes superfícies, há outros problemas que afectaram e afectam o comércio tradional e, especialmente o que se localiza no “centro” de Viseu. Por exemplo, a inexistência de um conjunto de políticas públicas eficazes para atraírem e fixarem novos residentes e empresas no “centro” de Viseu (nomeadamente no Centro Histórico).

Finalmente, é difícil olhar para as dificuldades do “centro” de Viseu e não referir exemplos práticos de apostas erradas, como o projeto de revitalização do Mercado 2 de Maio. Aliás, numa nova tentativa de “remediar” este problema, foi recentemente publicado em Diário da República o anúncio de um concurso público para “revitalização” de parte deste espaço.

Só analisando o passado é possível construir o futuro e parece cada vez mais consensual que o futuro das Cidades não pode assentar numa lógica meramente “construtiva”.

O futuro exige a valorização das pessoas. Mas exige igualmente que tudo façamos para preservar tradições e lugares que fazem parte da identidade de um Povo. Viseu não pode desperdiçar este património. Custe o que custar.

Artigo publicado no Diário de Viseu

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