Notas de um puto político - Cumpra-se Abril!




Cumprem-se agora 38 anos desde o 25 de Abril de 74. Porém, com este texto, não quero comemorar o seu aniversário, quero antes refletir, algo que eu penso que todos os anos nos esquecemos de fazer...
Para que serviu o 25 de Abril? O que nos trouxe? Liberdade será a primeira resposta... Mas essa já nos é banal, certo? E mais? Que valores nos trouxe aquela revolução, que ideais? Entre outros, fraternidade, solidariedade, democracia, justiça social. Estarão então cumpridos todos estes ideais? Acho que a resposta é consensual – não.  Mas porque não?

Comecemos pela justiça social. Terá a educação qualidade e será ela para todos? Terão os mais desfavorecidos todas as condições mínimas de vida asseguradas? Será a saúde acessível a todos, quando vemos idosos a deixar de comprar medicamentos ou de ir ao médico para poupar dinheiro para a sua alimentação? Ou quando vemos famílias endividadas a serem retiradas de casas que não conseguem pagar? Acho que a resposta voltará a ser consensual – não. Mas porque não?

Depois a democracia. Aqui, tudo começa com a nossa atitude. Criticar é correto, mas agir é bem melhor. Toda a gente critica os políticos – certo - mas quem é que, por exemplo, alguma vez pediu esclarecimento aos deputados que elegeu? Quantos? Quantos já se juntaram e criaram petições? Quantos vêem os debates da Assembleia da República (AR) para depois tecerem as suas críticas conscientemente? Quem vai ao site da AR para seguir a atividade de cada um dos deputados em que votou? Quem denuncia abusos e fugas ao fisco? Quem reporta problemas e sugere soluções? O 25 de Abril aconteceu para desconcentrar o poder que 5 ou 6 pessoas detinham, para o dividir pelo povo. Estaremos nós a beneficiar desta liberdade de participação política? Não me parece... Às vezes parece que ser político, já por si, é sinal de desonestidade e de “interesseirismo”. “São todos uns corruptos, uns mentirosos”, acham mesmo que isto é verdade? Não seremos nós cúmplices desta descredibilização? É certo que existe corrupção, interesses, influências, mas será justo generalizar tudo isto? Será bom para a nossa democracia? Não!

Mas sim, também devemos repensar o sistema político. Na minha opinião temos a base perfeita para um sistema político perfeito: uma república e uma democracia. Falta agora uma atitude que me parece que ainda não se tem - a de não ambicionar o poder. Claro que eu quero o meu partido “seja governo” mas e se o outro partido estiver a fazer um bom trabalho? Ao que temos assistido nos últimos anos é à política “do bota abaixo”, em que se a medida vem de outro partido, dificilmente será aceite por outro, e isso não é política! Política é discutir, sugerir, criticar e construir de novo, isso sim é política! Não quero especificar casos, pois isto é um texto de reflexão global, mas não é muito difícil pensar ao que isso nos levou,  e bem há pouco tempo...

E a culpa disto tudo? É de utilizarmos mal o dinheiro, ligarmos demasiado aos mercados, regularmos deficitariamente a economia, pois tudo isso leva a que se perca dinheiro e que se fique sem margem de manobra social! O problema de hoje é que passou a ser mais importante o bem-estar dos bancos e das grandes empresas, do que o bem estar das pessoas e da sociedade.

Concluindo, caros amigos, mais do que comemorar os 38 anos do 25 de Abril, devemos todos preocupar-nos em cumpri-lo primeiro!

Gonçalo Azevedo da Silva

1 comentário:

  1. Estou de acordo contigo em vários aspectos, sou socialista mas sou apartidário e como tu disseste "o 25 de Abril aconteceu para desconcentrar o poder que 5 ou 6 pessoas detinham, para o dividir pelo povo" mas o que aconteceu foi que há 6 partidos na AR que se agarram demasiado a identidades e não ao que é realmente importante, as pessoas, limitando assim a democracia. Eu até diria que vivemos numa democracia "clubística". Este governo para mim ainda é pior que o de José Sócrates e esta oposição das "abstenções violentas" é fraca, há excelentes ideias na esquerda e apesar de defenderes um partido que me está a desiludir, tenho esperança que gajos como tu sejam o futuro daquele que teoricamente seria o partido com o qual me identificaria mais.

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