“Inspiremo-nos nas nossas Mães de Abril”



Celebramos, no mês que corre, o 25 de Abril e de 38 anos de comemoração da “Revolução dos Cravos”. Mas para que possamos colher ensinamentos desta celebração, importa que o façamos como balanço, ligando esse passado ao nosso presente num exercício de profunda reflexão e análise crítica, num ano em que a revolução dos cravos se reveste de particular significado. Com é dito em notícia de jornal “a causa continua a reunir consenso, mas a sua celebração, em 2012, apresenta fissuras sociais, com alguns dos heróis de abril fora de cena, em protesto político”.

É verdade, pertencemos a uma geração que conviveu diretamente com o 25 de Abril. Assistimos na primeira pessoa aos duros exemplos de vida de tantos pais e mães de família. Vidas de esforço e de trabalho árduo, marcadas por múltiplas e sucessivas dificuldades, reveladoras de uma capacidade hercúlea na gestão de economias domésticas exíguas, sob um regime de direita, em que a ausência de direitos, a censura e a perseguição políticas lhes impôs a linguagem do medo, do silêncio (tantas vezes gritado!), da fome e da resistência.

Convivi de perto com a determinação e a tenacidade de muitas famílias que lutavam por uma vida melhor. O sonho era que algo terminasse com os “privilégios do nascimento”. Famílias de homens e mulheres do povo, determinadas em assegurar o ganha-pão. Trabalhavam para além do limite.

Recordo o senhor Afonso, profissional exímio na sua área do “controle de qualidade” numa fábrica de calçado de uma empresa multinacional. Um homem de esquerda que sempre integrou os movimentos sindicalistas. Em causa, as condições de trabalho da classe operária que longo tempo representou. Mas que grande força de trabalho estava na mão da Dona Maria Julieta, a coluna vertebral da família. Fazia de ecónoma, de tutora dos percursos escolares dos filhos, de fiel conselheira do senhor Afonso. Continuamente pensava no futuro da sua prole!
A D. Maria Julieta representava uma maioria significativa de mulheres: dona de casa zelosa, competente nos seus sete ofícios, cidadã empenhada, mulher interventiva, muito crítica face ao “dito” papel secundário resultante da sua condição de mulher. Saltava à vista o seu inconformismo. Usava o seu testemunho como factos provados e repetia-o, vezes sem conta, para que Rute, sua filha, escutasse. Evocava as discriminações a que foi sujeita, por ser mulher, por ser pobre, por não a terem deixado estudar. Frequentou a escola até à terceira classe. No seu trajeto diário, em quilómetros de trilhos rurais, não se lhe conheciam sapatos. Poucas vezes levava merenda. De estatura franzina, mas veloz e com força de guerreira, recordava, vezes sem conta, ainda com mágoa, o facto de um dia ter ganho “uma corrida”, organizada pela escola. Não lhe foi permitido ganhar! Não lhe foi reconhecido o mérito de ter chegado em primeiro lugar. Foi desclassificada pelo simples facto de ter corrido descalça. A medalha foi entregue ao filho do “senhor fulano de tal”! Nunca esqueceu essa vitória não consentida! O sonho de tocar violino, de aprender línguas, de ser advogada ou de exercer a profissão de juíza, ficou pelo caminho… Decidiu reconverter estes sonhos, então recalcados, em mensagens de incentivo e de motivação.

- Estuda! Tira um curso! Dá o teu melhor! Sê sempre uma excelente profissional! Conquista a tua independência! Aproveita esta oportunidade que eu te dou!

Recordo, ainda hoje, este discurso da Dona Maria Julieta. Estudar era a única forma de escapar de um destino demolidor de sonhos. Custasse o que custasse.

Nesse 25 de Abril, o senhor Afonso manteve a rotina. A D. Maria Julieta, com a rádio e televisão ligadas, de janela em janela, acompanhou com Rute o renascer de um novo acreditar. Com olhos de esperança presenciaram uma nação inteira, amedrontada e quase incrédula, a aderir a um movimento de mudança, de esperança e de liberdade. Nos seus rostos vigilantes, com fé crescente, perceberam que uma grande transformação social estava a ocorrer! Portugal nunca mais seria o mesmo e sobretudo nunca mais regressaria ao mesmo. Pela primeira vez, líderes militares e forças políticas, com um forte sentido de convergência, comprometeram-se pública e solenemente de que Portugal não se submeteria mais a sistemas de repressão, de injustiça social e de discriminações.

Rute agarrou a oportunidade. Destacou-se enquanto estudante e licenciou-se em Matemática; realizou-se como profissional de educação na edificação de uma escola para todos os alunos, sem exceção. A exigência da sua educação e as conquistas de Abril foram determinantes na construção de princípios e no reforço das suas convicções. Convicção quanto à implementação de um ensino universal, gratuito e obrigatório para todos os alunos, sem exceção. Convicção quanto à necessidade de mais e melhor acesso a cuidados de saúde para toda a população. Convicção quanto à necessidade de um emprego estável regulado com leis laborais mais justas, mais zelosas dos direitos de todas e de todos os trabalhadores, com maior proteção e segurança. Convicção quanto à necessidade de um papel igualitário da mulher na sociedade e a uma progressiva abertura à sua participação em todas as áreas, incluindo no domínio político. Convicção quanto à necessidade de construção social de uma cidadania democrática, mais próxima das pessoas e mais inclusiva.

Quase com meio século, Rute, profissional competente, cidadã empenhada, mulher interventiva e crítica, apresenta aquele rosto de preocupação, tão familiar: o da sua mãe.
                                                                                                                                                                                             Joana, filha de Rute, não vivenciou esta conquista! Usufruiu-a em pleno com uma infância despreocupada e com uma fé absoluta no futuro. Com 22 anos confronta-se agora, Abril de 2012, com uma crise económica e financeira. Uma ofensiva, na opinião da sua mãe, significativamente lesiva dos direitos das mulheres, dos direitos dos alunos, dos direitos das pessoas com deficiência, dos direitos dos desempregados; direitos tão dificilmente conquistados. Joana vê-se confrontada com a real hipótese de ter de partir, em busca de uma oportunidade inexistente no seu próprio país!

Há quem se sinta tentado a afirmar que os direitos conquistados em Abril não são sustentáveis e que, por isso, temos de alterar os nossos ideários e convicções. Querem fazer-nos acreditar que sociedades mais sustentáveis são aquelas em que apenas alguns eleitos têm o direito de usufruir de uma vida plena. Aos restantes caber-lhes-á sobreviver!

Não nos deixemos enganar! Depois de 38 anos continuamos a precisar de mulheres e mães empenhadas, competentes, rebeldes, temperamentais, decididas e inconformadas, capazes de transferir para os seus filhos motivação e essa profunda ambição de vencer!

Às mães de Abril? É preciso lembrá-las! Sempre!

Cristina Fonseca

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