O batom vermelho de Belém

A teoria foi criada por Leonard Lauder, presidente da empresa de cosméticos Estée Lauder, em 2001. É o índice do batom e prova que, em tempos de crise, o consumo do delicioso cosmético dispara. A razão é desconhecida: as mulheres canalizam os recursos disponíveis para um produto comparativamente barato e com “efeito imediato”? A crise estimula a depressão e a depressão tende a ser compensada com o maior uso dos cosméticos? Aqui não há consenso, mas o índice do batom de Lauder é considerado fiável. As crises económicas e os atentados terroristas de 2011 em Nova Iorque coincidiram com o aumento do consumo de batons.
Nestes tempos cinzentos, de recessão e com índices de desemprego assustadores, o nosso batom vermelho tem sido Aníbal Cavaco Silva. Passos Coelho cai nas sondagens? Aníbal centra a “agenda” em José Sócrates. O desemprego dispara? Aníbal divulga um prefácio com uma denúncia espectacular. A recessão vai ser maior do que as optimistas previsões iniciais? Todo o PS, os comentadores político e o país em geral têm um fantástico bombo da festa – sim, o mesmo, Aníbal Cavaco Silva.
À medida que a crise se agrava, Aníbal “vende” cada vez mais, funcionando como uma manobra de distracção ao estilo de um batom vermelho. Não é por sua vontade expressa que Aníbal Cavaco Silva tem funcionado como barreira hidratante do governo Passos. Mas as circunstâncias têm-no levado aqui, malgré lui, para delícia dos anticavaquistas hoje instalados no governo, que nunca esperariam vir a contar com esta inaudita ajuda por parte do Presidente da República.
A verdade é que a história não tem nem mais nem menos importância que um batom vermelho. Afinal, muito antes do bendito prefácio, Cavaco Silva já se tinha queixado de falta de lealdade institucional e da falta de cooperação entre órgãos de soberania. Foi em Dezembro de 2008, a propósito do Estatuto dos Açores, que Cavaco denunciou ter sido “posta em causa a lealdade no relacionamento entre órgãos de soberania”, acusando de estar ferida “a cooperação estratégica”. Nesse longínquo 2008, Cavaco avisou que a lei em causa “abala o equilíbrio de poderes e afecta o normal funcionamento das instituições” e que “a qualidade da nossa democracia sofreu um sério revés”. Se bem se lembram, não aconteceu nada. Porque é que teria que acontecer depois, quando José Sócrates – praticamente já demitido por Cavaco, senão na forma, na perda de confiança expressa no discurso da tomada de posse – lhe escondeu o PEC IV?
António José Seguro, o secretário-geral do PS, veio ontem dizer que não entende “a utilidade para o país do prefácio no caso concreto das críticas que foram objecto de análise pública por parte do Presidente da República”. É um facto que não têm qualquer utilidade para o país, mas têm uma imensa utilidade para o governo em tempos de crise. O facto de Cavaco Silva (desde a famosa declaração das pensões) se ter transformado no batom do governo é uma circunstância inesperada e relativamente assustadora.

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