Jorge Sampaio “Crise académica prenunciou o princípio do fim do Estado Novo”

 24 de Março de 1962, Jorge Sampaio era secretário-geral da Reunião Inter-Associações Académicas. Um lugar evidente para o estudante de Direito da Universidade de Lisboa, um “independente de esquerda” com actividade académica intensa. Foi um dos protagonistas da crise académica que estalou nesse dia. Cinquenta anos depois, o ex-Presidente da República responde ao ipor escrito (esteve toda a semana nas Nações Unidas, em Nova Iorque) sobre o que reapresentou a revolta: o início do fim do regime. Era Dia do Estudante, Salazar alegava não o ter autorizado e a polícia de choque cercou a Cidade Universitária. Porquê a repressão? “Medo”, considera Sampaio, que no entanto diz ter percebido que o caminho para a queda do regime ainda era longo. Aos jovens de hoje e perante as dificuldades actuais, o ex-Presidente pede o “proverbial ‘engenho e arte’”.
Na sua autobiografia política disse que as lutas estudantis de 62 marcaram o seu percurso e fizeram de si “uma pessoa diferente do que era antes”. O que é que mudou na forma como olhava para o país, e mesmo a nível pessoal?
A percepção de que mobilização e a acção colectivas podiam ser vectores de mudança social e política, e que esta era possível.
Até que ponto é que a crise académica contribuiu para o desgaste e queda do regime de António Oliveira Salazar?
A crise académica não foi um acto isolado, mas inscreveu-se numa cadeia de acções e eventos que acabaram por culminar em Abril de 74. É difícil avaliar a parte desempenhada por cada um destes acontecimentos, mas sem dúvida que a crise académica teve um grande impacto no Estado Novo, podendo dizer-se que prenunciou, de certa forma, o principio do fim.
Consta que Salazar disse a Franco Nogueira que teria de ser duro com os estudantes, porque se arriscava a que os revoltosos chegassem ao poder. Nesse aspecto não se enganou, mas qual é a razão para o regime ter usado de uma repressão tão forte com os estudantes?
Para mim foi o medo, pois os acontecimentos de 62, pela sua amplidão e ineditismo, apanharam o regime desprevenido.
Quando percebe que há uma nova geração que está disposta a fazer frente a Salazar, pensou que o regime ia finalmente cair ou tinha consciência das dificuldades que existiam em lhe pôr fim?
Penso que para mim foi claro muito cedo que iria ser um processo longo, cujo desfecho, aliás, na altura não era nada óbvio.
Num texto publicado há dias no “Correio da Manhã”, Medeiros Ferreira recorda que o embaixador britânico em Lisboa escreveu que “a maioria dos observadores consideraram a situação mais grave para o regime que a agitação de rua dos comunistas”. Como é que enquadra a oposição feita pelos estudantes na contestação que já existia, nomeadamente do PCP?
A crise de 62 traduziu e exprimiu uma aspiração de participação cívica muito generalizada que, começando na universidade, galgou os seus muros e mobilizou a atenção de múltiplos sectores da sociedade portuguesa. Foi um grande momento de unidade em que não se jogavam grandes clivagens políticas.
Nessa altura estava mais próximo dos comunistas? Seja como for, nunca aceitou entrar no partido. Porquê?
Era, como na altura se dizia, um independente de esquerda. De resto, apesar de ter tido uma formação marxista, nunca me identifiquei com a matriz ideológica do Partido Comunista nem com a sua rigidez, pouco compatível com o meu sentido de diálogo e do compromisso.
Mário Soares recorda – no livro de entrevistas de Maria João Avillez – que tentou conquistá-lo para a Resistência Republicana e Socialista e, nessa altura, Manuel Mendes alertou-o que corria o risco de ser como as “meninas muito prendadas, que se fazem difíceis e ficam para tias”. Como é que olhava para Mário Soares?
O dr. Mário Soares era de uma geração diferente, mais velha… eu na altura era um jovem recém-licenciado que olhava com admiração e respeito para pessoas como o Dr. Mário Soares, sem prejuízo de manter a minha independência e capacidade de juízo.
Na década de 60, o país vivia uma situação difícil. Houve contestação que culminou na queda do regime. Hoje voltamos a ter sinais de pobreza e voltam a estar em risco conquistas como o acesso aos cuidados de saúde ou a segurança social. O que é que os portugueses, sobretudo os estudantes, podem fazer para ultrapassar esta crise?
Persistir na procura de oportunidades, usando do nosso proverbial “engenho e arte”, da nossa capacidade de inovação e da facilidade que temos em interagir e criar solidariedades em qualquer parte do mundo. Firmeza, ambição e abertura para novas formações e reciclagens profissionais parecem-me também atitudes positivas para vencer as dificuldades que temos pela frente.
Cinquenta anos depois de se envolver na oposição ao regime de então e de ter tido um papel importante no regime democrático, como é que olha para Portugal, a braços com uma crise gravíssima?
Com apreensão, mas também com esperança, porque conheço a capacidade que nós, portugueses, temos de ultrapassar as dificuldades e de nos batermos pelo país e pelo nosso futuro como povo.


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