A crise chegou à mesa dos portugueses


Nos últimos meses do ano passado, a economia portuguesa conseguiu bater vários recordes, todos eles negativos. O consumo privado, os gastos públicos e o investimento apresentaram os maiores recuos desde que há registo estatístico, e a crise chegou mesmo à mesa dos portugueses, com o primeiro recuo dos gastos alimentares dos últimos 15 anos. As exportações - que se espera que sejam o motor da economia - também estão a abrandar, intensificando os receios de que, este ano, a recessão seja pior do que o esperado.


O Instituto Nacional de Estatística (INE) actualizou ontem os dados do Produto Interno Bruto (PIB) do último trimestre de 2011, apontando agora para uma queda homóloga de 2,8% no final do ano passado, a maior desde o segundo trimestre de 2009 - o ano da recessão internacional. Em comparação com o terceiro trimestre de 2011, o PIB contraiu ligeiramente mais do que o INE previa inicialmente (1,3%), sinalizando o acentuar da recessão.


O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, reagiu a estes números dizendo apenas que a contracção da economia em 2011 foi "substancialmente menor do que aquela que estava prevista no nosso programa de ajustamento" - 1,5%, em vez de 2,2%. Mas "esqueceu" o que os números também mostram: uma degradação significativa da actividade económica na fase final do ano, que parece ter afectado o poder de compra dos portugueses até nos bens mais essenciais - os alimentares.


A diminuição do rendimento disponível provocada pelos cortes salariais e pelos aumentos de impostos fez com que, nos últimos dois trimestres de 2011, as famílias tivessem reduzido as despesas com bens alimentares (-0,2% no terceiro trimestre e -1,1% no quarto). É a primeira vez desde 1996 - último ano para o qual o INE tem dados disponíveis - que estes gastos sofrem uma queda. O Banco de Portugal (BdP), que tem séries históricas das componentes do PIB, não tem informação trimestral sobre os gastos alimentares anterior a essa data, mas, a julgar pelos dados anuais, pode ser o pior valor registado em várias décadas. É que, se considerarmos todo o ano de 2011, as despesas com a alimentação estagnaram pela primeira vez desde 1971.


Quedas inéditas


A queda do consumo de bens alimentares no final de 2011 coincide com o período natalício, um momento em que este tipo de gastos aumenta. Por isso, está a ter um impacto significativo neste sector de actividade económica. Esta semana, durante a apresentação de resultados da Jerónimo Martins, o presidente executivo da dona do Pingo Doce, Pedro Soares dos Santos, afirmou que o sector alimentar caiu 1,1% em 2011 e que, só no último trimestre, a queda foi de 3,1%.


"Nunca me lembro de ver o mercado alimentar a decair", dizia o presidente da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), Luís Reis, no final do ano passado, salientando que, além do impacto nas vendas, a queda do consumo está a obrigar ao encerramento de supermercados, algo inédito nos últimos dez anos.


Reflectindo esta diminuição do consumo alimentar, as despesas com bens não duradouros estão em queda, um comportamento que é pouco habitual, visto que, geralmente, as famílias tendem a cortar primeiro nos gastos com bens duradouros (automóveis ou electrodomésticos). Depois de quatro trimestres em queda, as despesas com bens não duradouros registaram, entre Outubro e Dezembro, a maior diminuição desde que há registos (1979).


O mesmo acontece com os bens duradouros, que acumulam quedas de dois dígitos desde o início de 2011 e recuaram 31,1% na quadra natalícia, também um novo recorde. Tudo somado, o consumo privado - que contribui em 64% para o PIB - contraiu 6,6% no ano passado. Um cenário que tende a manter-se este ano, na sequência das novas medidas de austeridade, como os cortes dos subsídios de férias e Natal a funcionários públicos e pensionistas e o novo agravamento da carga fiscal. Os últimos números do mercado automóvel são já um sinal disso. Nos dois primeiros meses deste ano, as vendas totais de veículos caíram quase para metade (-47,3%).


Além do consumo privado, a economia está a ser penalizada por quebras históricas em dois dos seus outros motores: o consumo público e o investimento. No último trimestre, os gastos públicos retraíram-se 5,7%, a maior descida de que há registo. O mesmo aconteceu com o investimento, que recuou uns históricos 24,3%.


E se o motor pára?


Se o comportamento destas componentes do PIB já era expectável, devido à pesada cura de austeridade e ao ajustamento orçamental, o mesmo não se pode dizer das exportações. O Governo e a troika estão a contar que as vendas ao exterior mantenham um crescimento forte, que puxe pela economia, mas a desaceleração do crescimento mundial e o risco de recessão na zona euro podem comprometer as previsões.


Em 2011, as exportações cresceram a bom ritmo - 7,4% - mas nota-se já uma acentuada desaceleração na recta final do ano. No quarto trimestre, as vendas ao exterior aumentaram 5,8%, o desempenho mais fraco desde a crise económica internacional de 2009, que fez as exportações recuarem 10,9%.


Com mais de 60% das exportações concentradas na zona euro, a economia nacional está seriamente exposta a uma degradação das perspectivas de crescimento nos seus principais parceiros comerciais. A Comissão Europeia está a apontar para uma contracção de 0,3% na zona euro este ano, enquanto o FMI está ligeiramente mais pessimista (-0,5%).


Cientes destes riscos externos, os países europeus, com destaque para a Alemanha, têm demonstrado alguma abertura para proceder a um ajustamento no programa de ajuda nacional. Este poderia passar por um novo resgate, mas também por um alívio das metas do défice e, consequentemente, da austeridade imposta, o que poderia limitar o impacto negativo na economia.



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