A liderança do consenso

As agências de notação financeira, cuja capacidade científica e técnica não é objecto de avaliação, nem de conceito nem de exercício, parecem seguir um calendário de intervenção que se aproxima de uma variável significante para sinalizar o desalinho da solidariedade atlântica, em regime de perplexidade desde o fim da guerra fria, e da transformação do Yes, we can com o acrescentamento de uma referência implícita à dúvida instalada sobre a capacidade disponível.

Lembremo-nos de uma citação corrente de uma passagem de Theodore Roosevelt, que é a seguinte: "A Declaração de Independência deriva a sua particular importância, não da verificação do que a América era, mas por causa do que ela havia de ser."

Duas guerras mundiais, na mesma geração, deram a vítimas e sobreviventes a convicção de que a solidariedade atlântica era também um fortalecimento do conceito de ocidente, e que o que a América haveria de ser, declarado por Willson e confirmado por Roosevelt, de acordo com os princípios proclamados pelos pais fundadores, seria exercer uma empenhada liderança que sempre caracteriza uma associação solidária de potências.

A liderança assumida, e que parecia confirmada ao enfrentar os cataclismos das guerras, não significou imposição pelo poder superior alcançado, militar e economicamente, mas a capacidade de esclarecer objectivos e meios, valores e instrumentos, em termos de implantar, desenvolver, e fortalecer a unidade dos envolvidos. Não apenas por decisões específicas dos seus governos, especialmente durante o unilateralismo republicano, também por individualizadas atitudes europeias que se afastaram do conceito de responsabilidade comum da aliança, a crise em que está mergulhado o mundo, e a decadência que não exclui nenhum país ocidental, crescerá de gravidade na medida em que o afastamento atlântico se acentue.

Se a Europa não aprendeu o suficiente com os erros cometidos no alargamento, na definição da estrutura institucional, e na falta de razoável ponderação do que realmente representaram no mundo os tentados pelo modelo do Directório, com lei ou sem ela, os EUA também não parecem ter aprendido o suficiente com os fracassos das intervenções militares de que são responsáveis depois da queda do Muro. Não é sem fundamento interpretar a situação mundial, durante a guerra fria, depois do desempenho no conflito militar anterior e na reconstrução da Europa destruída, no sentido de que o mundo estava aberto à liderança dos EUA.

O facto é que são agora mais frequentes os motivos, comentários, e até prognósticos pessimistas, sobre as relações entre as duas margens do Atlântico, que apontam mais para uma visão de interesses separados, até contraditórios, do que para a consciência de que o mundo global não se organiza necessariamente tendo em vista uma reverência especial para os ocidentais em geral, ou para qualquer das margens do Atlântico.

Não é plausível que o desejável renascimento das capacidades dos EUA dispensa o renascimento da capacidade europeia de voltar a ter uma voz escutada no mundo, nem há intervenção de agência de avaliação que reforce na Europa a crise, e nos EUA a recuperação que lhe restitua a união das capacidades euroestratégicas e geoeconómicas que foi deixando afastarem-se.

Desconhecer que os factos estão a confirmar os que de longe avisaram sobre a decadência do Ocidente é uma contribuição para que os próprios a consintam. Por isso é seguramente grave que qualquer dos países da União, esquecido das responsabilidades bem individualizadas no fim da supremacia europeia, assuma o equívoco de supor que tem capacidade diretiva para a Europa, já dividida em ciclos internos, e para responder aos riscos não ignoráveis dos ocidentais.

Parece mais indicado pensar no regresso à liderança dos consensos, que faz parte da herança preciosa dos fundadores, eles próprios inspirados não apenas pelos sacrifícios da guerra em que participaram, mas também pela notável teoria histórica de projectistas da unidade.

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