Cultura e Economia


A hiper-modernidade esculpiu no homem uma nova imagem, um substrato reciclado numa original forma de ver o mundo ocidentalizado. E com ela o ideal de cultura transmutou-se, diversificou-se para além da sua natureza, permitindo o envolvimento de outras modalidades sociais que agora a sustentam. Com um novo significado, a cultura adquiriu um novo rosto económico, social e político. A ambiência cultural, já não circunscrita a si própria, conceptualiza-se agora à escala planetária, envolvendo em si o consumismo total, a aldeia global da tecnociência, o mundo digital e as indústrias económicas, reconfigurando o mundo em que vivemos e construindo a nova antropologia.

Filha da sociedade da comunicação e dos inputs de informação mediatizada a noção de cultura espontânea e unitária, composta pelo universo próprio de quem a produziu, dá lugar a uma cultura aberta a todos os sectores de actividade, alimentada agora por fluxos informáticos, pelo fenómeno da moda, pelos mercados e pelo ciberespaço. A linha divisória entre os tradicionais tipos de cultura esbate-se, o que denota a tendência para a homogeneidade cultural. Se o elitismo cultural é cada vez menos apreciado pela distância e desenraizamento da normalidade do nosso quotidiano, a cultura tradicional encontra-se desfasada dos apetites estéticos das novas gerações.

A cultura vislumbra-se no seio das novas questões da actualidade: a ecologia, o hiper-capitalismo, a crise económica. O desenvolvimento das novas tecnologias fez pulular milhares de imagens, sons, informação e conhecimento, que não podendo ser assimilados, criam a noção psicológica de abrangência cultural, mas que é falaciosa!

Se cultura e economia foram categorias habitualmente identificadas como esferas distintas da actividade humana, agora não são! As modernas dicotomias entre economia e cultura diluíram-se, dando origem a uma comercialização da cultura, alimentada agora pela super-abundância de imagens digitais e produtos cada vez mais cosmopolitas, plurais e diversificados. Contudo, se a individualismo contemporâneo nos arremessa para o fechamento do indivíduo em si e para a personificação das instituições, a hiper-modernidade remete-nos para a abertura ao conhecimento plural, ao mundo sem tempo, espaço ou fronteiras físicas, devido á generalização de um sentimento de pertença a um mundo global. A cultura absorveu os mercados, ou vivemos uma mercantilização da cultura?

Se a modernidade prometeu às grandes civilizações a esperança de um futuro aliciante após as crises e tragédias político-económicas, hoje o individualismo, a desorientação dos mercados e o descrédito na democracia empolam a nossa fragilidade, desencanto ético e o caos da ordem social. O domínio da nova hiper-modernidade cria-nos instabilidade afectiva, material e psicológica. Perdemos a fé num futuro melhor, deixamos de acreditar… A Europa mergulhada agora na crise económica já não é o oásis onírico da esperança e do triunfo dos valores do classicismo ocidental. Culturalmente sofremos a repercussão disso mesmo… a instabilidade e a desorganização cultural que nasce da abundância vertiginosa de informação!

Mas devemos regressar aos pilares edificadores do que a cultura deve ser, recolocá-la no seu papel como formadora estética da sociedade para a reestruturação de um novo pensamento cultural, que depende do comprometimento da sociedade civil na realização disso mesmo e do empenhamento político na efectivação desta vontade, como condição primeira da própria regeneração e continuidade dos pilares do sistema democrático.

1 comentário:

  1. Desde já agradeço pela boa leitura que me proporcionou. Facto cada vez mais raro!
    Mas no meu entender existem 3 erros na sua análise.

    1º: O elitismo cultural não é cada vez menos apreciado, nem é assim tão desfasado do quotidiano. Continua a ser apreciado, apenas não tem exposição mediática visto que ocupa um nicho.

    2º: A cultura tradicional não está totalmente afastada dos apetites estéticos das novas gerações. Vários projectos, mais o menos recentes, têm por base a herança cultural dos autores. Tanto na música, como na dança, como no teatro etc...

    3º A mercantilização da cultura sempre existiu... a formula da cultura POP proporciona a sua massificação.

    Cumprimentos,

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