2012: O primeiro Ano Português do Calendário Chinês

A venda da EDP à Chinesa Three Gorges é na minha opinião um marco importante para o futuro da economia portuguesa e pode representar, no médio prazo, uma mudança de paradigma no nosso processo de desenvolvimento, em particular, uma alteração significativa na estratégia de internacionalização das empresas portuguesas. O mercado externo é determinante para o crescimento das empresas nacionais. As exportações serão decisivas para o crescimento da economia portuguesa nos próximos anos, dadas as enormes fragilidades na procura interna.



A entrada de capitais chineses em Portugal abre, também, uma oportunidade nova de financiamento dos nossos défices - externo e interno - libertando-nos da excessiva dependência do financiamento europeu, isto apesar da venda de activos das privatizações não serem directamente contabilizados no abatimento do défice. Na contabilização do défice orçamental são apenas usadas as despesas e as receitas do Estado num ano. Destaque-se, contudo, que uma parte significativa da despesa do Estado Português é feita com os encargos que tem de suportar com os juros da dívida pública.



Por lei o Governo é obrigado a aplicar 40% do valor arrecadado na redução da dívida. Isso significa que dos 2,7 mil milhões de euros que o Estado arrecadou, com a venda da sua participação na EDP, cerca de mil milhões serão obrigatoriamente para esse efeito. Desta forma, o abate da dívida pública tornará o financiamento do Estado mais barato e o custo com encargos em juros menor. É importante percebermos que estes encargos com juros da dívida são hoje a componente mais importante da despesa pública orçamental representando já um valor superior à despesa com o Ministério da Saúde.



A entrada da Chinesa Three Gorges também é importante porque abre um novo mercado a Portugal. A China quer internacionalizar as suas empresas e a EDP vai contribuir para que isso aconteça. A China é hoje a segunda maior potência mundial e deve tornar-se a primeira na próxima década - mantendo-se as taxas de crescimento verificadas nos últimos anos. Percebe-se que a compra da EDP é parte de uma estratégia maior que procura “usar” Portugal como placa giratória para entrada no Brasil e em África e na União Europeia. Penso que Portugal poderá ganhar com esse processo uma vez que esta cooperação poderá induzir um maior crescimento na economia nacional por via de um significativo acréscimo de IDE – Investimento Directo Estrangeiro, financiado por um gigante comercial como é a China com fortíssimas reservas de moeda e com excesso de liquidez. A nossa excessiva dependência da Zona Euro, no tocante ao financiamento externo, acabou por não nos beneficiar e os resultados são por todos conhecidos. A diversificação de fontes de financiamento externo pode e deve trazer uma melhoria significativa de condições para o País, libertando-nos um pouco das amarras impostas pela Troika.



Finalmente, penso que a entrada da China na Economia Nacional deve ser entendida como um grande desafio para o País, necessariamente com riscos, mas que em face da situação gravíssima a que chegámos, pode representar uma solução inteligente para retomarmos os níveis de crescimento e emprego que todos desejamos que aconteça o mais rápido possível.



Alexandre Azevedo Pinto,

economista

1 comentário:

  1. Boa análise concordo com a necessidade de diversificar e não por os "ovos" todos nos bolsos da Europa logo da Alemanha.
    De qualquer modo, não acredito que esta entrada seja uma oportunidade para a entrada de Portugal no mercado chinês isso será difícil e o que vai acontecer é a entrada da china no mercado nacional. Também importante para a China será o Mercado Norte Americano, de energia, no qual a China tem dificuldades em penetrar e a EDP facilitará devido aos investimentos já efectuados e a desenvolver. O principal ponto negativo é o regime Chinês, mas esta é a realpolitik e o dinheiro não tem nação.

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