A CRISE DO EURO (II)




Durante os últimos anos – em particular desde a criação do Euro em 1999 - Portugal sofreu de um processo de enviesamento estrutural face a países como a Alemanha, a França, a Holanda ou a Áustria: tornámo-nos consumidores de primeiro e último recurso da Zona Euro, gastando mais do que obtínhamos de rendimentos (endividando-nos) e registando um défice das contas correntes cada vez maior. Paralelamente esses países eram produtores de primeiro e último recurso, gastando menos do que ganhavam (poupando) apresentando contas correntes sempre excedentárias. A acumulação de divida privada e pública em Portugal, tal como na Grécia, Espanha e Irlanda, deixou de ser controlável por via dos “buracos orçamentais” e pelos défices das contas correntes. Se a isto ainda associarmos o padrão de consumo excessivo com estagnação económica e perda de competitividade, temos criado o quadro complexo de crise que hoje todos nós bem conhecemos.


Quais as saídas para ultrapassar este grave problema?


Deixo aqui quatro sugestões faladas em meios académicos:


1. Reforma das Instituições Europeias e do modelo de governação da Moeda Única no sentido de aumentar a integração europeia que permita a sua sobrevivência. A criação de um Orçamento Comunitário que pudesse reforçar significativamente os poderes de intervenção das autoridades comunitárias - actualmente o orçamento da comunidade é apenas de 1% do PIB dos países que dela fazem parte. Em termos comparativos, a Política Agrícola Comum representa qualquer coisa como 40% do mesmo PIB. Da mesma forma deveriam criar-se mecanismos de transferência entre países da comunidade para ultrapassar choques assimétricos, ou ainda permitir a emissão de Obrigações Soberanas Europeias até um determinado limite o que permitiria financiar países ou regiões em maiores dificuldades;


2. Induzir um processo inflacionista “controlado”, estimulando a economia através de emissão (suprimento) de moeda ou reduzindo taxas, restaurando a competitividade e o crescimento em países periféricos da Zona Euro como é o nosso caso ao mesmo tempo que se põe em marcha um programa de reformas estruturais na economia. Esta opção implica uma flexibilização da política monetária por parte do BCE, uma forte depreciação do Euro no mercado cambial e estímulos orçamentais em países como Portugal;


3. A opção que tem sido a escolhida pelo directório Merkel­_Sarkosy e pelo BCE, tem sido o da deflação recessiva, por via de uma austeridade orçamental, com reformas estruturais que procuram impulsionar o crescimento da produtividade e reduzir os custos do trabalho e uma depreciação real do Euro através do ajustamento de preços;


4. Seria a saída controlada do nosso país da Zona Euro. Isso permitiria revitalizar o crescimento económico e a competitividade, através da depreciação do futuro “novo escudo”;


Qualquer uma das opções tem prós e contras, mas uma coisa é certa: o Euro acabará por desaparecer se a Zona Euro não souber caminhar no sentido de uma maior integração, com mais crescimento, competitividade e sustentabilidade dos endividamentos de cada país-membro, associado aos princípios da solidariedade institucional entre países que desde o início nortearam a Europa. Se tal não acontecer, a deflação recessiva imposta pelo directório irá certamente conduzir a um desmoronamento desordenado do Euro.

Alexandre Azevedo Pinto,
Economista

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