Entrevista na 1ª edição do Jornal "Beirão Socialista"

1º - Na conjuntura actual, com a actividade politica cada vez mais descredibilizada, o que te move para seres coordenador de uma juventude partidária?

Sou militante da JS desde os meus 15 anos e sempre senti esse descrédito, nomeadamente graças a alguns exemplos de responsáveis políticos que proporcionaram uma opinião negativa generalizada.
Porém, a resignação não é solução e entendo que devem ser os jovens os agentes dessa mudança de paradigma.
É essencial contrariar essa tendência e rejeitar espíritos derrotistas e apáticos.
Não é obrigatório fazer isso através de uma juventude partidária.
No entanto, pessoalmente revejo-me nos valores socialistas, nos valores da liberdade, da igualdade, da solidariedade, da abertura à diversidade, à iniciativa, à inovação, ao progresso, na defesa da economia de bem-estar.
É por isso que, liderando esta estrutura concelhia, o que mais desejo é chamar os jovens para a credibilização da política, para uma nova forma de fazer política.
Sei que não é uma tarefa fácil, mas assumo esse compromisso.
A JS sempre esteve ao lado dos jovens, sempre soube identificar os seus problemas, compreender as suas aspirações e identificar lutas comuns.
Sempre rejeitou fechar-se sobre si mesma, optando por assumir a posição de uma organização partidária capaz de fazer a intermediação com a sociedade, a qual tem de servir.
Assumiu essa atitude pelo país inteiro, ao longo destes anos.
Essa forma de agir vai também sentir-se no concelho de Viseu e os jovens vão-se aperceber que connosco dão voz à sua voz.

2º - Tendo em conta os problemas com que nos deparamos, qual deverá ser o rumo da JS para os próximos anos?

A JS tem uma matriz em termos de acção. A protecção dos direitos fundamentais e a afirmação dos valores da democracia, da liberdade, da solidariedade, da igualdade fazem parte dessa matriz.

Não há dúvida que os próximos tempos vão exigir muito da JS.
Com este governo, a JS deve estar empenhada em ser o motor da constante modernização e transformação da sociedade portuguesa.
Contribuir para o debate político apostando na formação cívica e política dos jovens, e alargar esse debate à sociedade civil.
Encarar o emprego e o empreendedorismo como elementos básicos da auto-sustentação e realização pessoal dos jovens que, numa fase de transição para a vida adulta em busca da sua emancipação, desejam vê-los cada vez mais como garantidos.
Continuar a marcar a sua actuação com propostas concretas a nível nacional e produzindo argumentários indispensáveis para o trabalho das estruturas locais.

No fundo, a JS deve continuar a ser o think tank da esquerda moderna portuguesa, lutando pela autonomia dos jovens e pela sua plena realização pessoal e social, afirmando a sua autonomia em relação ao PS mas sendo sempre fiéis às suas raízes e aos seus valores fundacionais.

3º - Quais os maiores desafios que um jovem terá de enfrentar se se quiser fixar no teu concelho?

No concelho de Viseu, a governação autárquica é assegurada há 22 anos pelo mesmo Partido e pelo mesmo Presidente.
É muito tempo e os vícios vão-se criando inevitavelmente. Este ciclo está a chegar ao fim. Um ciclo importante para Viseu onde se fez muita obra, mas onde havia tempo para pôr em prática outro tipo de políticas.

É precisamente nas políticas de juventude que encontro as maiores falhas.
Nós na JS temos mostrado que, em vez de Viseu ser conhecida pelas rotundas ou pelos jardins, preferimos que seja conhecida pela Terra das Oportunidades onde os jovens se possam fixar.
Ora isto só acontecerá se houver emprego.
Viseu vive numa aparente organização com dinamismo económico.
Sublinho a palavra “aparente”, porque ao mesmo tempo vê as suas gerações mais jovens a abandoná-la por não terem oportunidades. Há quanto tempo não se instala uma média ou grande empresa em Viseu?
Não somos só nós a dizer isto. Basta visitarem, por exemplo, as zonas ou parques industriais e falarem com empresários. Eles próprios reconhecem estas questões e sentem a urgente necessidade de uma política municipal de captação e atracção de investimento.

Nem tudo está mal obviamente, mas Viseu tem potencial que não tem sido aproveitado. As opções não têm sido as mais certas.
Viseu precisa de um executivo camarário com prioridades e apostas diferentes.
Viseu precisa de um executivo que ouça mais para decidir melhor, aceitando a implementação do Conselho Municipal de Juventude e do Orçamento Participativo, por exemplo, no sentido de uma maior intervenção e participação envolvendo os jovens nos processos de decisão.

Esse momento está a chegar.
Este é o tempo de políticos que pensam mais nas pessoas do que em obras eleitoralistas que não criam emprego nem qualificam os territórios.
A minha esperança é que ainda se vá a tempo de chamar os jovens. Os que ainda cá estão e querem cá ficar, e os que saíram para obterem mais formação mas que querem voltar para cá viver.


4º - Na tua opinião qual a Reforma Administrativa mais justa?
a) A nível do território local?
b) A nível do território nacional? 

O que estava a ser feito pelo anterior Governo ia, de facto, materializar-se numa verdadeira Reforma da Administração Local. Estavam definidos vários princípios como o da estabilidade, proporcionalidade, coesão territorial e social, proximidade.
Ou seja, as pessoas eram tidas em conta e rejeitava-se a adopção apenas de critérios matemáticos, no sentido de chegar a uma “Lei-Quadro” para a criação, extinção e fusão de freguesias.
Como refere o ex - Secretário de Estado da Administração Local, José Junqueiro, "a lei-quadro seria a base que permitiria aos autarcas, concelho a concelho, formular as suas propostas, com conhecimento da realidade local, sem critérios matemáticos ou absurdas distâncias lineares”.

Sei bem que este não é um processo fácil. Por isso, via com bons olhos o que estava a ser feito com debate e a participação de todos.
Na minha opinião, uma melhor administração local tem de ser mais simples, moderna e com ganhos de eficiência, mas não pode deixar de ser representativa e próxima das pessoas e deve-se tratar igual o que é igual e diferente o que é diferente.
Defendo, por exemplo, o reforço dos poderes das assembleias municipais, mas sempre no sentido de uma verdadeira fiscalização dos executivos, e sem a inerência dos presidentes de junta (poderiam estar noutro órgão) que a meu ver desvirtuam a representatividade directa. Defendo uma nova lei que permita ao presidente eleito para a Câmara Municipal escolher a sua vereação. Defendo a opção pela escala intermunicipal para tratar de cada vez mais tarefas como a rede de transportes, tratamento de águas residuais, relocalização de equipamentos de saúde, etc.

Para finalizar, posso dizer que não esqueço a questão da regionalização, e portanto considero que esse processo pode começar aqui pelas alterações que vão surgir, por exemplo, na Lei das Finanças Locais, Lei Eleitoral Autárquica, Lei de atribuições e competências, etc.
Tudo isso depende da existência de uma visão global e integrada do território, de ganhos de escala no planeamento, da simplificação e qualificação das decisões, da criação de hábitos de partilha de recursos que muitas vezes podem e devem ser comuns (aspecto tão difícil de concretizar em Portugal).

5º - Em que sentido deverá evoluir o projecto Europeu, para voltar aos valores da sua criação e entusiasmar os europeus?

Encaro esta crise económica e financeira que se sente na Europa como uma grande oportunidade.
O problema reside no facto de a Europa se encontrar apática, fraca, lenta e sem coragem e liderança políticas. As crises podem tornar-se oportunidades, mas só se demorarmos pouco tempo a sair delas.
Como diz António José Seguro, a Europa tem permitido “a subjugação da política e das pessoas aos mercados” e “desistiu da cidadania europeia em favor de uma sociedade de mercado”.

A Europa, numa primeira fase, precisa de concretizar várias políticas no sentido de uma verdadeira governação política e económica europeia. Decidir pela harmonização fiscal, pela emissão de eurobonds, o fim dos paraísos fiscais, uma agência de rating autónoma, um sistema bancário com regulação apertada. Tudo isto sempre encarando os problemas de cada país numa perspectiva colectiva, com solidariedade rejeitando egoísmos nacionais.

Se ainda tenho esperança na Europa, é porque estabeleço uma separação entre instituições europeias e o ideal europeu. É o segundo que ainda me entusiasma e me permite acreditar que ainda vale a pena lutar por essa causa, porque em relação às primeiras, há muito para fazer.

A Europa não é só uma moeda única ou um mercado.
Temos que voltar àquela Europa dos pais fundadores.
Aquela Europa onde a palavra de cada membro é essencial, e onde cada governo (ao contrário do que tem acontecido com o nosso) intervém e faz parte do debate pela reconstrução da europeia, não sendo as decisões tomadas apenas pelo eixo franco-alemão.
Aquela Europa da soberania partilhada, sem hesitações, aceitando ser um espaço de solidariedade e coesão social.

O processo europeu deverá portanto aprofundar-se com respostas globais, e admito até a questão do federalismo que, na minha opinião, deve ser posta em cima da mesa.

José Pedro Gomes - Coordenador da Concelhia de Viseu da Juventude Socialista

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