É melhor a Grécia sair? E depois, não vamos nós?


 
 
Há poucas semanas um governante da zona Euro dizia-me: "Há colegas meus gregos que receiam que a ingovernabilidade do país acabe em ditadura: o Fisco não cobra impostos, os transportes públicos não cobram bilhete… Isto é desobediência civil". "Não é bluff?", perguntei. "Dava muito jeito…". Resposta: "Não, é preocupação genuína".

O referendo para ratificar as decisões da última cimeira europeia sugere que Papandreou receia um golpe (mesmo sabendo que isso colocaria a Grécia fora do Euro e da própria
União Europeia)? Ou é mesmo "bluff"?

Para o caso tanto dá. O que interessa é que o referendo deixa a União e o Euro entregues à incerteza do resultado. Ora se há coisa que os mercados, já muito nervosos, receiam é incerteza. Como se viu ontem, com o disparo dos juros dos periféricos e o trambolhão dos bancos… O que leva a outra pergunta: pode a União continuar a segurar a Grécia? Se o referendo der "Não", é o fim da Grécia. Mas isso não pode desencadear um processo de abandonos sucessivos da zona Euro (primeiro Grécia, depois Portugal,
Itália, Irlanda, Espanha, Bélgica…)? Pode. Só que há quem esteja disposto a correr o risco, defendendo a capitalização dos bancos e dos Estados que, devido a um "default" total, ficariam na falência.

Este cenário seria gerível? Não. Se para um "default" parcial da Grécia os bancos de 11 países precisam de 106 mil milhões de euros, imagine-se um "default" total…; e imagine-se quanto custaria um "default" português (estando nós a meio caminho entre o falhanço grego e o sucesso irlandês ninguém nos quereria no clube). E, já agora, o "default" seguinte? Não, isto não é opção. Ou é?


Artigo de Opinião de Camilo Lourenço no Jornal de Negócios

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