O que nos reserva o futuro?



“PSP e secretas esperam maiores tumultos desde PREC: A agitação social deve crescer e pode atingir proporções nunca vistas nos últimos 30 anos. A previsão é de um grupo de comandantes da PSP, feita num relatório confidencial a que o DN teve acesso. O descontentamento popular com a crise económica faz a polícia e os serviços secretos temerem actos violentos. Por isso, já têm agentes a identificar grupos e protagonistas da contestação. “ Diário de Notícias

O que nos reserva o futuro: tumultos sociais ou sofrimento escondido?

Na semana passada, o Diário de Notícias revelou a existência de um relatório confidencial que alerta para a possibilidade de tumultos sociais em Portugal. A causa, essa, é uma velha conhecida: a crise económica.

Esta notícia não surge do nada. De facto, já no início de Setembro Pedro Passos Coelho alertara para a possibilidade de agudização da tensão social: “nós não confundiremos o exercício dessas liberdades (direito à manifestação e direito à greve) com aqueles que pensam que podem incendiar as ruas e ajudar a queimar Portugal”, afirmou então.

Terá sentido este alarme? Terá sentido este alarme num País como o nosso? Talvez…

Os Portugueses são, por regra, calmos e serenos. Um Povo que abraçou o Fado, a canção que traduz “o cansaço da alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e também o abandonou”, nas palavras do Poeta.

Mas, será que o “cansaço da alma forte” conduzirá, invariavelmente, a um estado de sofrimento escondido? Se as “crenças” desaparecerem e o sentimento de abandono se apoderar de alma colectiva, ainda assim permaneceremos quietos, mudos e calados?

Até quando durará o sofrimento escondido de quem deambula de contrato a prazo para contrato a prazo, sem qualquer perspectiva de estabilidade? Até quando durará o sofrimento escondido dos Investigadores que vagueiam de bolsa de investigação em bolsa de investigação, sem terem esperança de estabilidade? Até quando durará o sofrimento escondido de todos aqueles, que tomando o Estado como exemplo, se endividaram e contraíram novos empréstimos para pagarem dívidas que já não conseguiam pagar (e, dessa forma, entraram numa espiral de endividamento)? Até quando?

A mega manifestação de 12 de Março emergiu de um sofrimento escondido que não mais era possível conter. As manifestações do passado Sábado foram muito além dos organizadores e estruturas sindicais. As manifestações de amanhã serão, muito provavelmente, manifestações de todo um Portugal que deseja e merece um outro amanhecer

Não é possível silenciar sofrimento oferecendo repressão. Não é possível pedir a paz social, sem oferecer perspectivas de futuro. Não é possível exigir, sem nada dar. Não é possível ser politicamente irresponsável e pedir responsabilidade individual.

Alberto João Jardim, expoente máximo do regabofe político, tem-me irritado solenemente ao longo dos últimos tempos. O Estado calamitoso das contas da Madeira é mais do que suficiente para fazer corar qualquer Português de vergonha. A ocultação dessas contas é ainda mais grave. Pior, só mesmo a falta de carácter e de sentido de responsabilidade que leva os responsáveis da Madeira a assobiarem para o lado e a encontrarem outros culpados para as responsabilidades próprias.

Esta forma de fazer política, assente no compadrio, na mentira, nas coutadas, não tem, não pode ter futuro. Nenhum Português percebe, nem perceberá, o despesismo e o regabofe dos Políticos, quando se exigem sacrifícios e compreensão a toda uma Nação.

Se não mudarmos de vida, começando por quem deve dar o exemplo, é provável que o sofrimento escondido dê lugar à agitação social. E, nesse momento, como ensina a sabedoria popular, palavras leva-as o vento.

Artigo publicado no Diário de Viseu

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