Lição Francesa: aprofundamento democrático




Sempre tive dúvidas quanto à aplicação Europeia das eleições primárias. 

Porém, perante as eleições primárias promovidas pelo Partido Socialista Francês (PSF) para as Presidenciais de 2012 sou forçado, no mínimo, a questionar as minhas dúvidas. A primeira volta das eleições primárias do PSF teve aspectos que merecem ser realçados. De entre estes, destaco quatro:


  1. O Partido Socialista Francês tem menos de 150.000 militantes e nas Eleições Primárias votaram mais de 2.600.000 eleitores

  1.  2.600.000 Franceses, ainda que por um preço simbólico (€1), pagaram para votar.

  1. Ségolène Royal, que no passado vencera eleições primárias onde apenas podiam participar Militantes do PSF, obteve apenas 7% dos votos numas eleições abertas a todos os Franceses “de Esquerda e Republicanos”

  1. A surpresa da noite eleitoral foi o resultado de Montebourg, o Candidato mais à esquerda entre os concorrentes (17%, correspondente a mais de 450.000 votos), quando as sondagens apontavam para 10% dos votos.

Isto foi em França…e se as eleições primárias fossem em Portugal?

Com eleições primárias (abertas a todos os eleitores de Direita) será que Pedro Passos Coelho teria obtido 61% dos votos nas Eleições do PSD? E Aguiar Branco: será que teria obtido apenas 3% dos votos? Duvido…

Transpondo este exercício para as Autárquicas: com eleições primárias para as eleições Autárquicas, os candidatos escolhidos pelos Cidadãos seriam os mesmos que têm sido escolhidos pelos Partidos? Este exercício, ainda que meramente académico, tem naturalmente validade para todos os actos eleitorais.

Os mais cépticos logo dirão que “isso em Portugal não resulta”: os militantes do PSD votavam nos piores candidatos do PS e vice-versa. É uma tese. Porém, a verdade é que em França não foi isso que aconteceu e 2.600.000 votantes (e votantes que pagaram para votar!) representa, de facto, uma participação que ninguém pode ignorar. Mais, é óbvio que a participação de tão elevado número de votantes fortalece o Candidato vencedor das primárias.

Em Portugal, a primeira experiência das primárias será muito provavelmente realizada no PS. Ainda que num modelo limitado aos Militantes Socialistas, creio que esta ideia consubstanciará um importante passo rumo a uma maior democratização e legitimação dos futuros candidatos Socialistas.

Nesta breve análise às primárias da Esquerda Francesa, termino referindo-me a Montebourg, a surpresa da primeira volta. Com um discurso contra a globalização e contra os bancos, Montebourg conseguiu obter um resultado eleitoral superior ao que todas as sondagens apontavam. Surpresa? Não creio.

O discurso de Montebourg é um discurso que colhe cada vez mais adeptos por todo o mundo. Um discurso contra os sistemas que nos regulam e estrangulam. Um discurso contra o aumento de desigualdades e que visa a responsabilização dos mais poderosos e, para muitos, verdadeiros responsáveis pela crise.

No passado sábado, 15 de Outubro, sob o lema “United for global change”, houve manifestações em 951 Cidades por todo o mundo. “Unidos por uma só voz, vamos dizer aos políticos e às elites financeiras que eles servem, que somos nós, o Povo, a decidir o nosso futuro”, podia ler-se no site do Movimento “United for global change”. Antecipando estas manifestações, o La Repubblica escrevia que “se a Primavera Árabe derrubou tiranos decrépitos, o Outono Ocidental visa a tirania anónima dos dogmas económicos”

Ninguém pode ignorar que no passado sábado milhões de Cidadãos de todo o Mundo reivindicaram um outro caminho. Caso não haja mudanças, amanhã as ruas serão de muitos mais milhões. Montebourg sabe disso e, por isso, soube tirar partido dos descontentamentos.

Em Portugal, indiferentes ao exemplo Grego, os nossos Governantes continuam obcecados por ser o “bom aluno da Europa”. O problema, esquecem-se eles, é que é difícil ser-se um bom aluno se os professores são maus. Amordaçar um Povo, retirando-lhe esperança, somando restrições às restrições e não tendo uma estratégia de crescimento, pode custar caro. Não só aos políticos, como a toda a comunidade.

Voltando à “Lição Francesa”, Liberdade, Igualdade e Fraternidade fazem falta. Fazem cada vez mais falta.

Artigo publicado no Diário de Viseu

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