Falar Europeu


Com o progressivo alargamento da União Europeia, a necessidade de transposição do seu acervo jurídico em todos os Estados-Membros veio complexificar o já complexo esquema linguístico desta organização transnacional: estamos a falar, por ora, de 23 línguas oficiais.
Contudo, até à data, as respectivas Direcções-Gerais (DG Tradução e DG Interpretação) têm conseguido dar conta do recado sem que se dê pela sua presença. Podemos, pois, concluir que têm desempenhado bem o seu papel: a tradução será tanto melhor, quanto mais desapercebida passar.
Com a União Europeia, o tradutor ganha visibilidade. Primeiramente, uma visibilidade simbólica: é graças à tradução que cada Estado-Membro consegue aceder à legislação da União; a tradução aproxima os povos e torna possível o projecto europeu. A própria Tradução Jurídica – que tinha emanado do sistema bijurídico e bilinguístico canadiano - ganha importância na Europa (através da criação, designadamente, de grupos de investigação constituídos por juristas e linguistas e de uma rede de informações jurídicas à escala europeia).
A unidade na diversidade: tal é o desiderato desta tradução assim forjada e um dos lemas da própria construção europeia.
Contudo, ao traduzir um enunciado jurídico, seja ele de que tipo for, o tradutor não se deve limitar à análise da forma. Um texto jurídico não é um mero encadeamento de palavras: supõe um protocolo discursivo complexo, a tomada em conta da cena social e dos seus actores. O tradutor deverá transpor não apenas os conteúdos explícitos, como também os implícitos ligados às especificidades nacionais, às representações socioculturais de cada país. À pluralidade de direitos e de línguas acresce o facto de que, no cenário europeu, alguns países: a) só conhecem um direito, numa língua; b) conhecem o mesmo direito em duas línguas e c) conhecem dois direitos co-existentes, em duas línguas diferentes. As combinações sucedem-se.
Num tempo pautado por excessivas análises fatalistas, é possível que surjam reacções de defesa identitária e que o sentimento original de enriquecimento mútuo entre línguas e culturas diferentes se vá esbatendo.
São, pois, enormes os desafios dos “Tradutores da Europa”. A simplificação do texto jurídico, num exercício de desambiguação e harmonização dinâmicas pode ser um primeiro passo. O espírito fundador de unidade na diferença deve continuar a ditar o ritmo. Sobretudo, não devemos deixar de Traduzir a Europa. Em todas as suas línguas. Em todas as suas especificidades.

Ana Bela Cabral
Linguista

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