Setembro, um novo ano




Setembro é especial.  
Enquanto estudante, Setembro era o mês do regresso às aulas. Um mês marcado pelo encontro e reencontro de colegas e Professores. Alegria, ansiedade, saudade das férias, uma mescla de sentimentos pululavam na abertura de cada ano escolar.
Agora, enquanto Advogado, Setembro é o mês em que os prazos voltam a correr.
            Se há momento em que sinto (e sempre senti) que se inicia um novo ano, esse momento é Setembro. Por isso, aproveito geralmente a transição de Agosto para Setembro para reflectir sobre o ano que findou e, sobretudo, para perspectivar o ano que se iniciará.
            Nas férias aproveitei para pôr a leitura em dia. Simultaneamente, procurei acompanhar as notícias de Portugal e do Mundo. Procurei fazê-lo trocando impressões com pessoas pouco entusiastas de política e, sobretudo, de Partidos.
            A incerteza e o receio sobre o futuro é, infelizmente, a nota dominante. Julgo que não é para menos.
            Na semana passada, circulou a notícia de que um dos maiores hospitais da Irlanda, o Tallaghat (cujo público alvo se situa em meio milhão pessoas), se encontra na iminência de ter que encerrar os seus serviços de urgência. As condições de assistência aos doentes são de tal forma deficientes que as autoridades competentes consideraram este hospital como “um sítio perigoso para qualquer pessoa, e ainda mais para quem está doente”. Os especialistas apontam várias causas para esta situação, mas todos convergem quanto à causa principal: a falta de dinheiro motivada pelos planos de austeridade.
            Será que nós, Portugueses, estamos tão distantes desta realidade?
            Pedro Passos Coelho acha que sim. No encerramento da Universidade de Verão da JSD, Pedro Passos Coelho, num registo optimista, apontou 2012 como o ano “do princípio do fim da emergência nacional”.
            Sucede que, nesse mesmo dia, a directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, advertiu para o risco de a economia mundial poder estar na "iminência" de entrar em recessão.
O que estará correcto: o optimismo de Pedro Passos Coelho ou as cautelas de Christine Lagarde?
            No plano da política nacional, dois artigos publicados no Expresso criticam, de forma aberta, o actual executivo. Manuela Ferreira Leite afirma que a política fiscal do Governo “de justiça tem pouco e de eficácia nada.” Por sua vez, Miguel Sousa Tavares questiona: “Viram o relatório da Direcção-Geral do Orçamento relativo à execução orçamental até Julho deste ano? Tem duas coisas de espantar: a primeira é que, de Janeiro a Maio (isto é, sob o governo Sócrates) a despesa do Estado desceu, e, daí em diante (governo AD) subiu.”
            Confusos? Também eu…
            Em primeiro lugar, penso ser demagogo lançar perspectivas optimistas para o País sem sublinhar que as (imprevisíveis) circunstâncias “externas” e internacionais serão sempre variáveis determinantes do futuro. A crise internacional marcou o mandato de Sócrates e, naturalmente, não desapareceu com o aparecimento de Passos Coelho.
            Em segundo lugar, não basta pedir sacrifícios. Cumpre fazê-lo, como sublinhou Manuela Ferreira Leite, norteado por um princípio de justiça.
            Finalmente, se se pedir sacrifícios, há que dar o exemplo. Exigir austeridade aos Portugueses e aumentar a despesa do Estado é surreal. Exigir austeridade ao Povo e aumentar a despesa do Estado é atear um rastilho com consequências imprevisíveis.
            Por regra, Setembro marca o fim da silly season. Que 2011 não seja a excepção.


Artigo publicado no Diário de Viseu

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