Retratos


Num momento de reflexão, parece-me imperativo um olhar sobre os retratos que desenhamos do mundo, do país, da realidade. A objectividade de um retrato concretiza-se pela fidelidade com o visível actual, irreverente, mas, verdadeiramente, sempre inacabado.

Estou convicta de que represento o paradigma entristecido com que os jovens aprendem a desenhar o nosso país. De facto, são feitas exigências desproporcionadas ao estatuto jovem pela definição do reflexo da nova geração, a antevisão da responsabilidade de pintar o futuro. E quando idealizamos um porvir indefinido pela vontade irregrada de sonhar, de inovar, vislumbramos uma responsabilidade que limita os nossos horizontes pela imposição de uma crise política, social, ideológica, mas cuja essência degeneradora é o afastamento identitário e patriótico.

Pedem-nos competência, excepcionalidade, excelência e, de facto, somos apenas jovens que, violentamente, traçam, num quadro pouco nítido, linhas que parecem efectivar as palavras DESEMPREGO, AUSTERIDADE, CRISE, DIFICULDADE. Somos catapultados para um mundo de oportunidades escassas e procuramos ser extraordinários, pela nitidez da consciência urgente de reerguer Portugal.

Como jovem, como futura profissional, penso que é tempo para que nós, portugueses, encaremos os fenómenos do presente para o desencadear da mudança. Recuso-me a aceitar a dispersão, a ausência de um retrato em branco em que nos fosse disponibilizada a liberdade de não recear o futuro. Atrevo-me a citar Fernando Pessoa, uma voz que, através da obra Mensagem, arrasta a expressão pungente da penosa realidade quando constata Portugal a entristecer.

É a Hora!
É a Hora de redesenhar Portugal!
É a Hora…

Num projecto de esperança, citando agora José Régio, considero que é tempo de terminar o passado que se arrasta, para dar lugar a uma visão de mudança.

             Não sei por onde vou,
             Não sei para onde vou,
             Sei que não vou por aí!


Artigo de opinião de Sofia Lourenço

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