O Tiago é transparente !


O Tiago era meu amigo da universidade. Uso o “era” não porque o Tiago já não seja meu amigo, mas porque já não é estudante da Universidade. O Tiago deixou de estudar porque o pai que trabalha na construção civil e a mãe que faz limpezas não conseguiram ter dinheiro para que ele pudesse continuar a estudar. Abordo , pois, o problema das bolsas de estudo que no pretérito ano afectaram milhares de estudantes. E este ano perspectiva-se o mesmo.

Só em Coimbra mais de 700 alunos abandonaram o ensino superior por falta de meios.

A primeira tranche das bolsas de estudo chegou já haviam passados cinco meses desde o inicio do ano lectivo. Como sobreviveram os estudantes que estavam dependentes das bolsas ao longo desses meses , é uma pergunta que nunca terá resposta.

Mas se houvesse um julgamento de culpados, o ex-ministro Mariano Gago não estaria sozinho no banco dos réus. Há quem tenha mais responsabilidade e não é pelo que fizeram, é pelo que não fizeram. Estou a referir-me às associações académicas. A Associação Académica de Coimbra como a maior do país devia ter dado o exemplo. E o que fez ? Uma manifestação onde conseguiu a supressão deste novo regime que constava DL 70/2010 . Tal conquista teria sido de aplaudir se tal se tivesse materializado. Não se materializou, já que embora o regime tenha sido abolido, não se encontrou outro em alternativa, pelo que as contas se fizeram pelo que tinha sido suprimido, ou seja, o regime manteve-se (quase que tacitamente) em vigor.

Em Lisboa as associações académicas decidiram fechar algumas faculdades por um dia como forma de protesto. A ideia teria sido de aplaudir se não pecasse por tardia: o Governo já se tinha demitido. Numa palavra: as associações de académicas não souberem defender os estudantes, responderam mal , tarde e ilustrando um cenário de uma desunião jamais vista.

Os dirigentes associativos não foram suficientemente dissidentes. E não foram porque cada vez mais as associações académicas deste País estão dominadas por interesses próprios e partidários de quem as dirige. Saliente-se que , obviamente, quem pertence a um partido pode ser dirigente associativo, desde que o faça ciente de que uma associação académica deve,simplesmente, servir o interesse singular dos estudantes e não para ser usada como escada de poder.

Mas para se subir nesta escada vale tudo , se necessário, supera-se o sentimento moral ; a liberdade , o sossego , até a consciência , leva-se tudo à feira da ladra. Adeus Vida !

O Tiago e os “Tiagos” por este país foram transparentes. Quase ninguém sabe quem são, ninguém os ajudou quando num momento crucial das suas vidas mais precisaram. Quem podia ter lutado mais por eles silenciou-se, num silêncio que foi uma espécie de assunção de culpa mas absolvição perante o tribunal da ambição pessoal.

Só Deus saberá o sofrimento, angustia e a frustração de um pai que vê um filho a chegar a casa porque não tem dinheiro para se manter na Universidade e aquele sem nada poder fazer.

É absolutamente fundamental que as associações académicas e as Universidades concertem posições para que possam agir unidas contra esta lei injusta, explicando ao Estado, tão somente, o ensinamento de Santo Agostinho : “ Uma lei injusta não é uma lei, o que significa que tenho um direito e inclusivamente um dever para resistir, com violência ou desobediência civil. Deveriam orar para que escolha a ultima”.

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