Escrevi aqui há uns meses sobre a crise na Europa. Procuro, agora, recuperar algumas das ideias e actualizá-las em face dos desenvolvimentos recentes. Ouvia há dias o professor Adriano Moreira, na SIC-N com o Mário Crespo, que na sua visão lúcida e serena afirmava que o Capitalismo Financeiro tinha-nos conduzido ao actual desastre – um capitalismo que não tem por objecto a produção de bens cujo valor instrumental respeitasse os valores éticos das relações cívicas, mas antes a criação de uma realidade diferente, atraente e fictícia. A ficção tornara-se uma realidade assustadora. Parte da crise está aqui espelhada. O Capitalismo Financeiro – modelo actual do seu desenvolvimento, gera enormes fluxos de movimentos internacionais de capitais, puramente especulativos, destruindo riqueza real, nomeadamente emprego e prejudicando fortemente o bem-estar social das populações. As movimentações especulativas de capitais, são quatro a cinco vezes superiores ao valor das transacções reais de mercadorias e serviços.


Também na semana passada e com o forte abrandamento da economia alemã, associada à crise das dívidas soberanas da Europa com mini-crash nas bolsas e nos principais índices europeus com quedas da ordem dos 5%, gerou-se um ambiente de forte nervosismo e de falta de confiança nos mercados – parece existir a convicção da incapacidade política para ultrapassar os problemas. No espaço de um mês as principais bolsas europeias perderam cerca de 1/5 do valor das suas cotações. A subserviência política destes governos à doutrina dos mercados é assustadora e reflecte bem a crise da democracia política liberal europeia, a sua até há pouco pedra de toque.


Como dizia o professor a Europa é hoje conduzida por um directório “comandado” pela Chanceler Angela Merkel da Alemanha e pelo Presidente Nicolas Sarkozy em França com total complacência do Reino Unido, Itália e Espanha. Longe vão os tempos da filosofia fundadora da União Europeia e dos princípios solidários entre Estados – a este propósito leia-se a recente entrevista de Jacques Delors ao jornal Belga Le Soir – http://www.lesoir.be/.


Recuperando a tese de Henrique Raposo, que aqui trouxe há uns meses, nela o autor reforça esta ideia da decadência do continente europeu, reportando esse declínio bem para lá das questões materiais e económicas e colocando-as no patamar de natureza intelectual. Raposo identifica a crise da democracia europeia como a essência da verdadeira crise e do declínio da Europa. Os europeus de hoje estão hoje a trair a maior ideia europeia: a democracia liberal. Leia-se a este propósito a dominação selvagem que os poderes discricionários dos mercados e da economia hoje detêm sobre Estados ditos soberanos e sobre os seus representantes democraticamente eleitos.


Alexandre Azevedo Pinto,

Economista

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