Uma questão de bom senso

Por esta altura alguns milhares de estudantes candidatam-se aos (também milhares) cursos do ensino superior. Depois de tudo o que se passou no pretérito e no actual ano, nomeadamente a incontestável importância do movimento geração à rasca, não deixa de adquirir uma coloração algo estranha verificar que numa altura sacramental como é esta das candidaturas, o referido movimento permaneça impávido.




Na altura das manifestações fui dos mais acérrimos defensores das exigências , sublinhem-se , modestas , deste movimento. Deixei de ser. Era claramente indiscutivel que aquilo a que movimento se opunha não resultava da governação Sócrates. O problema é anterior e a solução(ou parte dela) , parece-me , ressoa por esta altura do ano. Os "à rasca" não podem deixar passar em claro todo o processo das candidaturas sem apresentarem soluções ou pelo menos uma tomada de posição.Não sei se o movimento foi de férias mas o desemprego não foi.


Já foi dito e repisado que não podem abrir tantos cursos e com tantas vagas pela razão mais óbvia de todas : não há escoamento. Mas o esforço é inutil porque os governos além de surdos fecham os olhos sob o véu de um pretenso direito à liberdade de escolha de curso. Sim, pode objectar-se que todas as pessoas têm direito a escolher o ramo que querem seguir no ensino superior mas não é menos verdade que o Estado tem obrigação de zelar e assegurar boas condições de vida para os seus nacionais.È essa a primordial função de um Estado.


Mas alheio a tudo isto habita no ensino superior uma "classe" de estudantes que não conhece dificuldades no que a emprego diz respeito. Falamos, como está bom de ver, dos estudantes de medicina.


A questão que se coloca é : o que é necessário para se ser portador deste passaporte para o mundo encantado do emprego garantido ? A resposta é o problema: Uma média que ronde 18 valores. Nada mais. É o problema porque isto tem rapidamente que deixar de deixar de ser suficiente.


Não há muito tempo era tradicional quando se abordava a escolha de um curso falar-se em vocação. Hoje em dia o tradicional é os pais obrigarem, incutirem e mentalizarem os filhos desde o 4º ano de escolaridade que têm de conseguir terminar o secundário com 18 valores para serem estudantes de medicina. Mas o que os pais (e eventualmente os estudantes) não percebem é que medicina não é um curso especial porque tem saída profissional ou porque se pode auferir um ordenado razoável. É especial porque se lida com pessoas doentes e necessitadas. Lida-se com pessoas (onde incluimos familiares) débeis e que necessitam muitas vezes mais do carácter humano de cada médico do que dos seus conhecimentos.Temos para nós que humanidade tem muito mais que ver com carinho e compreensão do que com ser-se possuidor de infinitos conhecimentos médicos, embora estes também sejam necessários.


Urge que o legislador português na esteira do que já vem sendo feito em muitos países por essa Europa fora, implemente um sistema de entrevista com o candidato ao curso de medicina para que desta forma se possa aferir a tão importante e a mais das vezes desprezada vocação.


Há uma frase inscrita na faculdade medicina da universisdade do porto que resume o espirito da ideia sobre a qual aqui discorremos : " Quem só sabe de medicina nunca será um bom médico"

1 comentário:

  1. Estou inteiramente de acordo, com grande parte do que deste a conhecer. No entanto, reflito principalmente sobre a primeira parte, daqueles que constantemente se dizem "à rasca", mas sem capacidade exequível de se dessenrascarem. Atirar pedras ao acaso, e por vezes acertar no que se pretende, é fácil, desde que muitos as atirem. Penso que foi o "grande objectivo" daquela pretensa concentração de ideias. Não mais do que reunir um grande número de indivíduos, sem uma ideologia sólida, bem fundamentada, ou com metas claras, a não ser atirar pedras. Ao contrário do que já foi planeado por outros órgãos, este movimento não foi objectivo, qualidade que raramente surge na nossa juventude. Quando se pretendem sessões de esclarecimentos, essas mesmo não acontecem. A forma mais fácil de cair no abismo, é andar de olhos vendados, e não aprender a ser-se cego.

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