Transparência, Ética e Responsabilidade na Política, OU


“Quando ganhamos todos ganham e quando perdemos todos perdem”.

Com o apuramento dos resultados  das eleições realizadas em Portugal, nomeadamente os dados relativos à evolução da abstenção na última década, o debate sobre o afastamento dos cidadãos da vida política e dos políticos tem vindo a acentuar-se e a procura e discussão de modelos diferentes de escolha dos representantes/responsáveis políticos, quer a nível nacional quer a nível local, ganhou relevância e motivou mesmo a realização de estudos de carácter técnico por especialistas e modelos de representação.
Em termos da eleição dos deputados tem vindo a fazer o seu caminho a ideia de que deverá haver círculos uninominais combinados com diferentes possibilidades de um círculo nacional, como forma de combater o afastamento dos cidadãos dos deputados e da vida política.
Respeito essas opiniões ainda que não concorde com elas, sobretudo pela dificuldade de manutenção de condições de governabilidade que decorrerá daí (quem não se lembra do famoso episódio do “queijo limiano” durante o segundo Governo de António Guterres e das críticas que gerou de muitos que agora parecem defender o modelo dos círculos uninominais).
Tenho para mim que o desinteresse e o descrédito dos cidadãos pela política, etimologicamente a arte do governo da “cidade agrupamentos de cidadãos”, resulta essencialmente da pouca transparência, ética e responsabilidade que os dirigentes políticos governativos e partidários têm deixado evidenciar.
As sucessivas promessas eleitorais (muitas delas claramente irrealistas) não cumpridas, a falta de clareza em muitos negócios do Estado, alguma ostentação imoderada de sinais exteriores de poder e despesismo no exercício de cargos, a distribuição de lugares, alguns criados sem justificação evidente, no aparelho de estado ou empresas públicas a pessoas a quem na maioria dos casos não se reconhece qualquer carreira ou experiência profissional relevante. Mas também a arrogância com que em muitos casos se fala com os cidadãos directamente ou através da Comunicação Social transmitindo a ideia de que não se está no poder para exercer um mandato que esses cidadãos conferiram, mas porque se tem uma espécie de “propriedade” sobre eles, sobretudo quando se pedem fortíssimos sacrifícios aos mesmos cidadãos que não parecem ser também aplicáveis aos dirigentes no exercício das suas funções, são para mim as principais razões do afastamento dos cidadãos da vida política e do descrédito dos políticos. E que fique claro que isto é aplicável, também, na maioria dos casos no poder local.
Mas não é esse debate que agora quero aprofundar.
Estas linhas vêm a propósito de uma afirmação que é muito comum utilizar-se nos partidos, mas também no futebol, a seguir a derrotas mais difíceis de digerir agora em voga  na campanha interna para eleição do novo Secretário- Geral do PS e que é a de que “quando ganhamos todos ganham, mas quando perdemos todos perdem”, ainda ontem utilizada em Viseu mais do que uma vez.
Trata-se de uma falácia evidente ainda que seja uma das típicas afirmações “politicamente correctas” para consumo externo. E é também uma forma de tentar evitar que se faça a reflexão necessária sobre as razões do sucesso ou insucesso do Partido e de passar uma esponja sobre os erros passados, bem como de tentar calar os que tendo divergido antes das opções embora acatando as mesmas por terem tido suporte de maiorias internas, como estratégia normal de defesa e consolidação do poder antes conquistado. Ou mesmo, em alguns casos, uma tentativa de “alguma diabolização” dos que tendo tido posições divergentes se pense que possam ser possíveis candidatos alternativos em eleições internas.   
É claro que quem pertence ao mesmo partido é porque tem, ou deve ter, um sentimento e princípios e valores comuns o que trará uma ligação e sentimento de pertença ao mesmo grupo. E, portanto, satisfação comum com as vitórias e pena e desagrado com as derrotas.
É que em nome da transparência, ética e responsabilidade políticas, mas também da humildade política que deve caracterizar os socialistas, o que se deve dizer/perguntar é:
“Quais as razões que levaram os cidadãos a não confiar em nós? Quais os nossos principais erros? O que fizemos bem e o que fizemos menos bem ainda que convencidos de que esse era o melhor caminho? O que precisamos de fazer para não voltar a cometer os mesmos erros?
Não se trata de fazer qualquer “acto de contrição”, pois a política não é uma questão de fé, ou qualquer autocrítica ao estilo “ leninista/estalinista”. Mas se os socialistas forem capaz de o fazer de forma serena, transparente, responsável e ética, o que significa que se afasta qualquer tipo de caça às bruxas ou intolerância para com opiniões internas divergentes e isso se tornar claro para os Portugueses, serão capazes de reconquistar a confiança do eleitorado. E darão um bom contributo para a melhoria da credibilidade do sistema político e dos políticos, muito melhor do que a criação de um círculo uninominal que englobe eleitores desde Cinfães a Tondela para obter o mínimo de eleitores necessários, eleitores esses que dificilmente terão conhecimento e contacto próximo com o eleito.

Artigo de opinião de Rui Santos

Sem comentários:

Enviar um comentário