EURO ABISMO




A nona sinfonia de Beethoven, mais propriamente o “Hino à alegria, é o Hino oficial da União Europeia. Este hino, sem letra, simboliza os ideais europeus da liberdade, paz e solidariedade.

Ideais nobres. Ideais que durante décadas nortearam os destinos da União Europeia e de milhões de Europeus.

A Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, a Comunidade Económica Europeia, os sucessivos alargamentos a novos Países, a queda do muro de Berlim, os acordos de “Schengen” e a criação do Euro foram passos importantes no aprofundamento do projecto europeu.

Com altos e baixos, a verdade é que durante décadas a “União Europeia” foi um hino à liberdade, paz e solidariedade. Durante décadas, os Cidadãos Europeus enraizaram a ideia de que apenas através de uma união económica e política seria possível garantir uma paz duradoura entre os Povos e os Estados. Durante décadas, o ideal europeu iluminou o futuro e inspirou modelos por todo o mundo.

Uma história com final feliz, na linha das melhores produções “hollywoodescas”, seria o óbvio….

Sucede que, nos tempos indefinidos que vivemos, um súbito “apagão” faz com que a Europa sucumba às escuras.

Ao contrário de outros tempos, a causa deste “apagão” não se encontra em disputas fronteiriças, nem em conflitos raciais, nem muito menos na megalomania de um líder. Não. Trata-se simplesmente de dinheiro e da voracidade de uns quantos que vivem à custa de Estados e, mais grave, das Pessoas.

Nas últimas semanas, têm-se sucedido as declarações de princípios tendentes a estancar a crise europeia. Referindo-se às agências de rating, a comissária europeia para a Justiça, Viviane Reding afirmou que “A Europa não pode permitir que o euro seja destruído por três empresas privadas norte-americanas”. Barack Obama afirmou que “seria desastroso assistir a uma espiral descontrolada do default na Europa, porque teria um conjunto de outras consequências.” Por sua vez, a Chanceler Ângela Merkel, em declarações à agência noticiosa alemã Deutsche Presse-Agentur (DPA), disse estar “absolutamente convicta” que a Grécia e Portugal iriam conseguir sair dos tempos difíceis que vivem.

No início desta crise, relembre-se, sucumbiu a Grécia. Por toda a Europa vociferaram vozes contra a irresponsabilidade Grega, o viver acima das possibilidades e a insustentabilidade de uma enorme fraude nas contas públicas. À Grécia, sucederam-se a Irlanda, Portugal…

Na passada semana, os mercados viraram-se para a Espanha e a Itália.

Num brilhante editorial sobre a irracionalidade dos mercados financeiros, o reputado jornal La Vanguardia questionava o porquê de os mercados financeiros atingirem simultaneamente Itália (que a curto prazo precisa de refinanciar uma dívida que supera 120% do seu Produto Interno Produto) e a Espanha (que só terá que voltar em “força” ao mercado depois do Verão e com uma dívida, relativa ao Produto Interno Bruto, que é metade da italiana). Qual a racionalidade disto? Aparentemente, nenhuma.

Como é que a Europa vencerá os ataques dos mercados financeiros? Qual a interferência de Wall Street nestes ataques sem rosto? Quem tem a perder e a ganhar com esta crise? Qual tem sido e qual devia ser o papel da Alemanha na crise da dívida soberana? As perguntas sucedem-se em catadupa.

A Europa é hoje um enorme ponto de interrogação. Respostas, como os chapéus, há muitas. Agora medidas práticas…

Seja qual for o caminho a seguir, uma coisa é certa: é tempo de abandonar nacionalismos egoístas e ganhar inspiração no “Hino à Alegria”. É hora de esclarecer se a União Europeia é um centro de interesses individuais ou um pólo congregador de esforços que desagúem numa integração económica mais profunda, nas palavras de Trichet.

No passado domingo, o presidente do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), Klaus Regling, em entrevista a um jornal alemão afirmou: “Até hoje, só houve ganhos para os alemães, porque recebemos da Irlanda e de Portugal juros acima dos refinanciamentos que fizemos, e a diferença reverte a favor do orçamento alemão”

Se esta for a lógica da solidariedade Europeia, as respostas à crise deixam de ser necessárias já que nada mais restará à Europa que não seja um abismo. Um Euro-Abismo.

Artigo publicado no Diário de Viseu

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