Verdade ou consequência?!...



É com curiosa ironia que vemos desenhar-se uma nova narrativa no que se refere à agricultura e à desertificação do interior. Pensamos que só podem estar a ser influenciados pela reposição, algures, do filme “1900” de Bernardo Bertolucci - excepcional retrato humano e social da vida rural italiana do inicio do século XX até ao final da 2ª Guerra Mundial.

Estas súbitas arremetidas lembram muito, com o devido distanciamento, as campanhas de dinamização do MFA. Também elas quiseram, de repente, quebrar o isolamento das populações rurais, abrir estradões, aceiros e pontes, realizar campanhas de alfabetização, organizar comissões de moradores, grupos de teatro e cooperativas, etc., que acabaram por se traduzir em inconvenientes nuvens de tensão com as populações dispersas por recantos perdidos nas serras da Gralheira, Montemuro, Caramulo ou Estrela.
Perante esta nova vaga, apetece recolocar à entrada das aldeias, na berma da estrada, aquelas antigas placas amarelas onde estava inscrito, em várias línguas, “bem-vindos”; e outras, à saída, para agradecer aos visitantes, sem que deixemos de nos perguntar: por onde andaram todos estes anos?!...
Dizem-nos que importamos 6 mil milhões de euros (muita massa!) em produtos alimentares e que o total das nossas exportações só cobre 50%, ou seja, 3 mil milhões. Os ricos solos agrícolas de antanho estão hoje abandonados, secos e repletos de urzes e silvas!... Alguns dos proprietários envelheceram, outros morreram, outros, ainda, vivem tão longe que já nem se lembram. E então?!... O resultado foi este: as aldeias não foram abandonadas, esvaziaram-nas, para deleite do sector imobiliário e financeiro, da construção civil e dos autarcas, e de todos quantos instigaram à transformação dos terrenos agrícolas em urbanizáveis.
Nada nos move contra o actual desfraldar de bandeiras contra a desertificação do interior e abandono dos campos. Nós, os que cá vivemos, não temos feito outra coisa, por isso estamos cá. Incómodo mesmo é que tal esteja a ser feito por alguns dos “promotores” do declínio rural, através das “PAC’s”. Ainda bem que dizem, agora, o contrário do que fizeram. Vale mais tarde do que nunca. Esperemos é que não se cansem, começando por discriminar os que aqui vivem no que se refere, por exemplo, ao IRS, IRC, IMI, para além de apoiar a instalação de empreendimentos que visem o reforço da produção agrícola e o aproveitamento florestal!...
Paradoxalmente, ou talvez não, a união (europeia) não fez a força. E se nada se fizer, a sério, podem emergir perigosas derivas populistas como as dos “verdadeiros finlandeses ou holandeses”. É um lugar-comum dizer que “gato escaldado de água fria tem medo”, mas o dia a dia é feito disto mesmo… Pois é. E aqui é que bate o ponto. Receamos que, mais uma vez, estejam a preparar-se para nos “vender gato por lebre” ou a olhar-nos como “espécie em vias de extinção” enquanto instalam ratoeiras, não para nos proteger dos predadores, mas para nos engaiolar com vista à criação de condições de nidificação e fertilização, em cativeiro, recuperando, assim, alguns dos investimentos em antigos e inconsequentes projectos de turismo rural.
Uma coisa é certa: não somos culpados dos deficits crónicos da Refer, da CP, do Metro de Lisboa e Porto, da Carris, nem dos prejuízos da TAP durante anos a fio. Mas, pelos vistos, temos que pagar, como todos os outros, o mesmo preço pela electricidade, água, saneamento básico, transportes, telefone, internet e… portagens. Quanto a pagar, somos iguais, já a receber!…
É, pois, com redobrada expectativa que vemos renascer das cinzas – qual Fénix! – tamanha preocupação com as explorações agrícolas e florestais. O principal sentimento é de perplexidade, não por despeito ou razão obscura, mas pelo facto dos discursos virem dos que pagaram para arrancar vinhas e olivais; dos que negociaram quotas leiteiras ruinosas para a indústria nacional dos lacticínios; dos que cortaram o crédito e limitaram a produção às explorações animais; e dos que deram de barato a nossa frota pesqueira e a indústria conserveira, para só falar de alguns dos casos mais relevantes.
Esperemos que não seja um mero flirt!... George Orwell na sua “quinta” escreveu que “todos os animais são iguais, mas há uns mais iguais do que outros”… É chegada a altura de fazer “dar a bota com a perdigota”… Estranho jogo este: verdade ou consequência?!...

Canas de Santa Maria, 11 de Junho de 2011
Cílio Correia

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