Rescaldo eleitoral...


Tal como no futebol, também na política é mais fácil analisar o jogo depois dos “90 minutos” do que fazer prognósticos. Sinto-me, por isso, um privilegiado.

Ao nível das ideias e das propostas, a campanha para as eleições legislativas foi uma desilusão. Zero de ideias, Zero de propostas, num remake político de um célebre anúncio televisivo. Assim, sendo inútil dissertar sobre o vazio, limitar-me-ei a tecer algumas considerações “estratégico partidárias”:

PS

Insistiu na tecla de que o apoio externo teria sido evitado caso o PEC IV não tivesse sido chumbado. Defender Portugal foi uma ideia que surtiu efeito junto de algum eleitorado socialista descontente e de algum eleitorado de esquerda, farto da casmurrice de Bloco e PCP.

Apesar de a tarefa ser, à partida, inglória, creio que o PS poderia ter conquistado maior simpatia popular se tivesse reconhecido a existência de erros e de culpa. Portugal encontra-se numa situação dificílima, motivada por uma crise externa, mas também por acções e omissões de todos (Governantes, Políticos e Portugueses em geral). Julgo que o assumir de erros, a vontade de os corrigir e de fazer mais e melhor no futuro poderia ter credibilizado o PS e José Sócrates.

PSD

Ao longo dos últimos meses, o PSD deu vários tiros nos pés: a proposta de revisão constitucional, a forma como foi apresentada a candidatura de Fernando Nobre à Presidência da Assembleia da República, as expressões de Catroga, o episódio da taxa intermédia, a reavaliação da interrupção voluntária da gravidez, etc., etc., etc. Tantos e tantos tiros nos pés, fizeram muitos duvidar da vitória eleitoral.

Porém, na hora da verdade, o PSD foi o Partido mais votado e, por isso, Pedro Passos Coelho será o futuro Primeiro-Ministro de Portugal. Aliás, o resultado eleitoral não deixa margem para quaisquer dúvidas. Ainda assim, creio que mais do que uma votação na liderança social-democrata, o resultado eleitoral evidencia duas coisas: (i) uma enorme vontade de mudança; (ii) que o exercício continuado do poder desgasta “eleitoralmente”

CDS

Portas fez a campanha mais inteligente e conseguiu evitar a questão que, na minha opinião, seria mais incómoda: por que é que agora tem abertura para integrar um Governo de coligação e não teve essa mesma abertura há 2 anos? (bem sei a resposta de Portas, mas se agora estava em causa o “superior interesse nacional”, não percebo como é que há 2 anos também não estava em causa esse mesmo “superior interesse”).

Nesta campanha, Portas afirmou-se como o baluarte da estabilidade (piscando o olho ao PSD e, de forma envergonhada, ao PS). No dia do voto, os Portugueses que queriam estabilidade e, simultaneamente, não se reviam nem em Sócrates, nem em Passos Coelho, sabiam que tinham no CDS um voto útil. Daí a boa votação do CDS e a penalização de PCP e Bloco.

PCP e o Bloco de Esquerda

Mantiveram o seu registo siamês de “orgulhosamente contra”. Contra a troika, contra o apoio externo, contra tudo e contra todos. Confesso que gostava de encontrar um simulador que permitisse “visualizar” o futuro: o que fariam PCP e Bloco de Esquerda se, por mera hipótese académica, fossem Governo? Por vezes, há um oceano que separa as palavras das acções e, também por isso, seria interessante verificar a prática destes Partidos.

De qualquer forma, e não obstante terem sido penalizados pelos eleitores, creio que Bloco e PCP vão rapidamente entrar numa trajectória ascendente: os próximos tempos são de grandes dificuldades e sacrifícios e, faça-se justiça, ninguém é melhor a capitalizar descontentamentos do que este dois Partidos. A luta de rua será inevitável e aí PCP e Bloco são imbatíveis…

Depois deste período eleitoral, o PSD tem finalmente uma Maioria, um Governo e um Presidente. A competência não tem cor. Espero, por isso, que o novo Governo responda aos grandes desafios que se nos colocam e recoloque Portugal na senda do Progresso.

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