REFLEXÕES PARA UMA NOVA ESQUERDA (I)

As eleições do passado dia 5 de Junho marcam uma derrota profunda da Esquerda. Esta derrota fica a dever-se à governação desastrosa de José Sócrates, sobretudo nesta última legislatura: a sua arrogância, o seu autoritarismo, o seu ilusionismo político, mas sobretudo o seu enorme vazio de propostas para o País. O governo de José Sócrates deixou de ter um projecto para o futuro do país, talvez porque também ele tivesse deixado de acreditar nele. O facto é que esta incapacidade de definir uma ideia para o futuro aliada à crise gigantesca dívida nos colocou num plano de tal forma inclinado que acabou por estender a passadeira ao regresso, e em força, da Direita ao governo maioritário do País. Mas esta é também a derrota de um PCP e de um BE que continuam acantonados nas lógicas do simples protesto e do isolacionismo político. Esta estratégia foi também ela fortemente penalizada nesta eleição.

É de facto um momento histórico: a Direita tem pela primeira vez em Democracia um governo maioritário suportado por uma maioria parlamentar e um Presidente da República. Se a isto quisermos associar a maioria das câmaras municipais, a Direita domina hoje a quase totalidade do espectro político português. Como dizia Rui Tavares, no Público de segunda-feira depois das Eleições, o dia de reflexão da Esquerda começava ali.

A Esquerda terá que fazer uma Reflexão séria para o futuro partindo desta nova realidade política. Esta deverá merecer uma atenção especial e uma reflexão particular de toda a Esquerda no sentido de se poder construir uma alternativa política sólida a prazo. A construção dessa alternativa, a médio prazo, deve ter necessariamente uma abrangência alargada visando propostas políticas de âmbito nacional mas também propostas para o poder local. A Esquerda terá, de uma vez por todas, de ultrapassar este “tabu de não cooperação” entre si procurando convergir naquilo que tem de comum. Superando esta barreira podem encontrar-se plataformas alargadas de apoio político com capacidade para apresentar alternativas com ampla base de apoio social. Esse deverá ser o caminho.

As candidaturas com (e de) independentes e de cidadãos devem merecer uma especial atenção no sentido de se poderem encontrar essas convergências alternativas com apoio social alargado e com capacidade para essa mobilização e transformação. O reforço da democracia participativa, da liberdade de participação e de opinião e o fortalecimento de novas formas e activismos sociais, devem ser bandeiras de um projecto alargado de uma Nova Esquerda. Um Esquerda Reformista que procure também combater a crescente crise de legitimação da democracia representativa, fortalecendo a sociedade civil e a cidadania.

Alexandre Azevedo Pinto,
Economista

Sem comentários:

Enviar um comentário