A Paliçada


A política, de quem todos dizem mal, atrai porque é aquilo que é! A resultante imaterial das condutas pessoais e colectivas, a mistura de grandes ideais com pequenas misérias, ao fim e ao cabo, uma parte da vida tal qual. Não há pachorra para políticos perfeitos, coerentes e virginalmente impolutos, nem para o discurso moralista que faz supor a sua existência. Estaríamos, na circunstância perante "os homens excepcionais" que normalmente arrastam as sociedades para o lodo e os países para o charco.

Por isso os democratas são, em primeira linha, os que aceitam as coisas como são. Mas que no credo de um ideal filosófico, lutam para que elas venham a mudar. Não há contradição entre essa resignação e esta mudança. O mundo é o que é, mas sempre vale a pena fazê-lo melhor.

É esta dialéctica entre o presente que sempre está mal e o futuro que se espera redentor que explica as sobreposições da política com a religião. O que em muitos casos produziu dramáticas catástrofes históricas, quando nessa dualidade, a independência desaparece e os homens se deixam conduzir só por uma, ou só por outra.

Porque todos sabemos alguma coisa destas perversidades intrínsecas ao fenómeno político, não admira que as amizades políticas se rompam ou se retomem à velocidade da luz, que os Países se encontrem e desencontrem na fugacidade e que os Continentes ora se disputem, ora se aliem. Por isso, todos os políticos deverão saber que a regra é a permanente solidão. E que só a dinâmica acidental dos interesses gera algum companheirismo que se traduz momentaneamente em simpatia, ou em apoio. Mas que à primeira contrariedade se estilhaça, voltando tudo à forma inicial da ordem política que é a brancura da estrada deserta.

Por isso os políticos se precatam. Apostam em pequenas fortalezas espetando no solo homens a servir de paliçada. Não são "body guards" façanhudos e de cara desconhecida. São, pelo contrário, gente solícita e simpática do mesmo trem de vida com quem se pode comer na mesma mesa.

Com este expediente os políticos têm sempre gente à mão, a dizer-lhes que sim, aumentando o seu conforto moral que ilude a solidão. A questão é que com tão boa guarda, afastam-se dos outros, precisamente, dos que não estão de plantão e que acreditam neles e esperam deles. Mas quanto mais se guardam, mais se afastam e acabam como uma miragem, na linha do horizonte. Deixaram de existir!

Normalmente, os primeiros a perceber, são os da "paliçada" que se vão estacar à volta de outro "ícone", com nome de gente!

Não se pense que tal se passa na baixa política.

Passa-se sempre onde ela está. A solidão é a regra inexorável. Mas não se sai dela com jactância, pairando acima das realidades. A política é o que é. Um jogo de homens, mas só triunfa quem joga com todos, em campo aberto. A política é uma perversidade com ética!

Luís Marinho
Coimbra, 21 de Junho de 2011

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