Nos caminhos da hiperdemocracia.



Com a derrota da Esquerda nas últimas eleições legislativas, fechou-se inevitavelmente um ciclo. Duas semanas depois, é já tempo de construir, reflectir…

Perguntas inevitáveis como sejam, (i) por que motivo os Europeus em geral, e os Portugueses em particular, “castigaram”, de forma tão acentuada, a Esquerda?; (ii) qual o papel da Esquerda na Governação?; (iii) qual o papel da Esquerda na Oposição?; (iv) qual deve ser o futuro posicionamento ideológico e estratégico partidário da Esquerda?, merecem uma resposta. Merecem, no mínimo, uma reflexão.

Rui Tavares, Eurodeputado eleito pelo Bloco de Esquerda, sintetizou a importância de uma reflexão à Esquerda da seguinte forma (www.ruitavares.net): “Sabemos onde falhou o sistema financeiro. Sabemos onde falhou o neoliberalismo. Sabemos onde falhou o centro-direita, e o centro-esquerda, e a social-democracia. Sabemos tudo, é fantástico. Só não sabemos responder a esta pergunta: onde falhámos nós?

Sim, porque nós havemos de ter falhado em qualquer coisa. Se não tivéssemos falhado, não teríamos a troika a tomar conta da casa. Se não tivéssemos falhado, não teríamos, dois anos depois de os bancos terem estourado com o sistema financeiro, o discurso hegemónico a estourar com o estado social em favor da mítica austeridade.

A esquerda não será séria se achar que fez tudo bem e que, para o futuro, só há que continuar a fazer o mesmo.”

Onde falhámos nós? Esta pergunta, tão simples, poderia ser um bom início para um diálogo à Esquerda. Como também poderia ser uma pergunta interessante para os Candidatos a Secretário-Geral do Partido Socialista, cujas eleições terão lugar nos próximos dias 22 e 23 de Julho de 2011.

No momento que vivemos (crise, austeridade, hegemonia da direita, défice, restrições orçamentais), o processo eleitoral para Secretário-Geral do PS configura uma oportunidade única e irrepetível para que o Partido Socialista reflicta sobre o passado, mas sobretudo sobre o futuro de Portugal, da Europa e do Mundo. Neste processo eleitoral, mais importante do que a eleição, por si só, do próximo Secretário-Geral do Partido, revela-se essencial a promoção de um saudável confronto e contraditório de ideias e projectos.

Até hoje, as campanhas de Seguro e Assis têm sido "individuais": entrevistas individuais, sessões de esclarecimento individuais, posições cujo contraditório é feito pelos Militantes. Claro que o exercício do contraditório pelos Militantes é positivo. Muito positivo, aliás.

Espero, porém, que ambas as Candidaturas e Candidatos estejam disponíveis para ir mais além. Espero que proliferem Debates entre os Candidatos e abertos não só aos Militantes, como à Sociedade Civil. Julgo que há uma sede colectiva de conhecer, de forma o mais aprofundada possível, quem são os Candidatos a Secretário-Geral do PS, mas sobretudo quais as suas ideias. Penso, aliás, que ambos os Candidatos têm o dever (ainda que moral) de ser os primeiros a promover esses Debates.

Importa não subestimar nem a consciência, nem muito menos a vontade da "massa popular". Importa não subestimar a "hiperdemocracia"...

“É falso interpretar as situações novas como se a massa se houvesse cansado da política e encarregasse a pessoas especiais o seu exercício. Pelo contrário. Isso era o que antes acontecia, isso era a democracia liberal. A massa presumia que, no final de contas, com todos os seus defeitos e vícios, as minorias dos políticos entendiam um pouco mais dos problemas públicos que ela. Agora, por sua vez, a massa crê que tem direito a impor e dar vigor de lei aos seus tópicos de café. Eu duvido que tenha havido outras épocas da história em que a multidão chegasse a governar tão directamente como no nosso tempo. Por isso, falo de hiperdemocracia.”
Ortega y Gasset

Artigo publicado no Diário de Viseu

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