Dar uma dentada num cão ou exigir a reestruturação da dívida?


Os tempos de crise são propícios ao aparecimento de feiticeiros-salvadores. Aqueles que ainda não resolveram todos os nossos problemas porque não são escutados.
Se pensam que os Doutores "Fiti" e "Zaqui", formados nas melhores academias mundiais, não surgem em economia estão enganados. Como era dito na conferência do início de 2010 da American Economic Association, estes doutores aparecem com ideias que nunca foram ensinadas aos estudantes e aos jovens, e estes podem dizer "porque razão nunca me ensinaram isto que afinal é bem simples?". Lamentavam-se os economistas professores nessa conferência que não havia tempo para combater toda a charlatanice, a conhecida e a que sera inventada.

Vem isto a propósito do "reescalonamento da dívida". Aqui, o trauliteiro da economia tem de ser rápido. Se ele não avança com a ideia outro o fará. Pena é que não dê nas vista mordendo o primeiro cão que lhe apareça na Av. da Liberdade, de preferência um Pit Bull. Era notícia e evitava asneiras maiores. Em 1891 acabou para Portugal o padrão-ouro. A crise do Barings envolvido na (crise) da 
Argentina, a queda das remessas do Brasil e o descontrolo orçamental em Portugal levaram que em 1892 Portugal interrompesse os pagamentos das suas dívidas. Pagámos apenas 1/3. "Bom negócio", dirá o Doutor Zaqui. Quando quisemos meios financeiros para custear a intervenção na Primeira GG, nem um tostão tivemos. Em 2001 fizemos o último pagamento respeitante àquela crise. A FEUC promoveu um Ciclo de Cinema e Debates onde a crise da Argentina do início deste século foi apresentada e discutida. A miséria daquele povo, o roubo da classe média, o desrespeito por todos, impressionaram quem assistiu ao Ciclo.

Alguns países interromperam unilateralmente os pagamentos na década de 80 (1980). Mas um notabilizou-se, o revolucionário Peru. Na década de 70 resolveu interromper pagamentos. As exportações caíram, as importações viram os preços subir radicalmente, e... mendigaram negociações numa situação de crise e de falta de confiança. Estamos na segunda década deste Século e felizmente 
Lula da Silva, com a sua política de responsabilidade e confiança, destruiu o folclore terceiro-mundista. Nos anos 80 a reestruturação da dívida foi feita, parcialmente e mal feita, pelo Clube de Paris (credores públicos) e Clube de Londres (credores privados). E felizmente que a seguir ao plano Baker tivemos a iniciativa Brady. No mínimo, uma década foi perdida pelos devedores. Mas o principal ponto é que tem de haver um interlocutor para qualquer reestruturação. Antes do pedido de ajuda à UE ele não existia. E existindo, tem de haver razões para o seu convencimento. Neste momento a Irlanda dúvida que possa ir ao mercado de capitais em 2012 vender obrigações do Estado.

Reestruturar a dívida com anúncio simples, "Portugal exige/quer reestruturar a sua dívida", provocaria a interrupção dos fluxos financeiros externos para Portugal. Quem pudesse punha o seu dinheiro no exterior e os emigrantes não seria parvos ao ponto de para cá enviarem as suas poupanças. As empresas deixariam de ter crédito comercial e bancário no exterior e ninguém lá fora compraria a nossa dívida pública. E os bancos? Os bancos entrariam em falência, a menos que fossem adquiridos ao preço da "uva mijona" por bancos estrangeiros. A ideia da reestruturação antes deste acordo, dito, com a troika, era uma estupidez que só a ignorância e a inexistência de algum cão poderá justificar. Mas a reestruturação é uma palavra proibida?

Reestruturação é o que o Instituto do Crédito Público faz permanentemente com a sua gestão da dívida, gerindo-a de forma a alterar maturidades e condições de juros em face das perspectivas do mercado da dívida. A ligação aos credores privados no actual Acordo resulta dessa ideia de caso a caso a dívida poder ser renovada, maturidades e condições de juros alteradas.

A Iniciativa de Viena, em 2009, com o apoio do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento e do 
FMI, permitiu que a reestruturação fosse feita, para economias do Leste europeu, em termos da sua maturidade, pela renovação dos créditos sem o aparato do agrado do Doutor Zaqui. E como o fluxo de capitais não foi interrompido para essas economias, elas até beneficiaram de menores taxas de juro resultantes da confiança dos credores. E será com certeza feita parte da reestruturação da dívida de Portugal nas negociações de mercado entre as instituições portuguesas devedoras e os credores sem que isso seja uma "imposição" estúpida e inútil. Quando se tem uma pneumonia vamos a um médico e não ao Doutor Zaqui. 


SOUSA, Andrade João (2011).
Artigo publicado noJornal de Negócios, 06/06

Sem comentários:

Enviar um comentário