Bin laden: Fez-se Justiça?

“Fez-se Justiça”
(Barack Obama)
“O êxito desta missão, que culmina uma longa operação de quase uma década, exprime a determinação do povo americano e seus aliados em combater o terrorismo e o fanatismo, que tantas vítimas inocentes têm provocado”
(Luís Amado, Ministro Português dos Negócios Estrangeiros )

           No 11 de Setembro, quando vi a imagem de um primeiro avião a embater contra uma Torre do World Trade Center, pensei que tudo não passara de um acidente de aviação. Mais do que pensar, quis acreditar que assim fosse. Depois, com o segundo embate, estarreci. Como era possível alguém atacar alvos civis e indefesos de uma forma tão grotesca e, simultaneamente, cobarde? Nenhum credo ou instinto de vingança justifica a perda de vidas humanas.
        Como resposta a estes ataques, sob a liderança de George W. Bush e como parte de uma estratégia global de combate ao terrorismo, os Estados Unidos encetaram a denominada "Guerra ao Terror", cujos principais alvos foram os movimentos ou grupos “terroristas” e os Estados que os acolhiam e/ou de qualquer forma os suportavam.
No início do mês de Maio, depois de duas guerras sangrentas no Afeganistão e no Iraque, depois de 150.000 mortes e de se ter gasto mais de um trilião de dólares, foi “finalmente” morto Bin Laden, o líder da al-Qaeda.
Sucede que, ao contrário de muitos (talvez até da maioria), não me consigo associar aos festejos. Desde logo, porque não acho que a morte de Bin Laden seja uma vitória tão significativa. Depois, porque não considero que se tenha feito justiça. Vamos por partes
Em primeiro lugar, é consabido que a Al-Qaeda é hoje uma organização que definha em termos de seguidores, recursos financeiros e de capacidade para organizar acções contra os seus “inimigos”. Por exemplo, recentes estudos indicam que na Palestina a confiança da população em Bin Laden caiu de 72% em 2003 para 34% em 2011, sendo que na Jordânia essa quebra de confiança foi de 56% para 13%. Aliás, a própria reacção do mundo islâmico à morte de Bin Laden é a prova do seu enfraquecimento: houve mais indiferença do que lamentação, muito menos revolta. O terrorismo de Bin Laden vinha sendo progressivamente destronado, não tanto pela força das balas, mas  pela luz e magia de sucessivas “Praças Tahrir”.

Em segundo lugar, a Al-Qaeda não assenta numa estrutura piramidal cuja cúpula seja A, B, C, ou Bin Laden. Pelo contrário, é uma estrutura dispersa em múltiplas “células”, que assenta mais em responsabilidades directas dos seus membros, do que em “cúpulas” organizacionais. Aliás, é difícil compreender como é que um homem ou um pequeno grupo a viver nos arredores de Islamabad, sem telefone e sem internet (de acordo com as notícias entrentanto difundidas), poderia veicular uma mensagem para o “universo” dos seus seguidores e, mais difícil ainda, como os poderia “comandar”. Por isso, cumpre ter a clarividência de perceber que não é por morrer um homem que morre uma causa e que muito menos assim será no universo do fundamentalismo. Perante isto, terá sido a morte de Bin Laden uma vitória tão significativa?
Em terceiro e último lugar, entendo que a morte não é, em nenhum tempo e lugar, sinónimo de justiça, nem muito menos de êxito. Concordo com Ana Gomes quando escreveu no blog “Causa Nossa”: Justiça só poderia haver com Bin Laden capturado, vivo e julgado. Morrer assim, sem ser confrontado com os seus tenebrosos crimes, foi fácil demais, poupou-o.”
Artigo publicado no Diário de Viseu

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