Outra vez a Crise



“Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: - mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não - pelo menos o Estado não tem: - e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura. “

Para os mais incautos este texto poderia ser um excerto de uma qualquer entrevista, realizada a semana passada, a Medina Carreira ou a um outro comentador da nossa praça. Na verdade corria o longínquo ano de 1891, quando Eça, através do seu heterónimo Fradique Mendes, lançou esta feroz crítica à classe política em Portugal, motivada pela crise de então. Uma crise que ocorreu há 120 anos e não nos últimos 30 anos, como nos quer fazer crer a virgem impoluta Paulo Portas (mais uma, já não bastava o Louçã!! Coisas dos extremos diria!), como que a dizer que isto das crises é um problema da democracia pós 25 de Abril! Bem sabemos como esta transição para a democracia irritou a extrema direita em Portugal, ainda que esta se apresente agora muito moderada e quase de centro, não consegue esconder o mal estar nas comemorações desta data que simboliza as liberdades de toda uma nação.

Diria Cesare Pavese que: “Apenas nas crises atingimos as nossas profundezas”, e deverá ser este o mote que nos deve orientar. Esta crise, à semelhança da doença que nos revela as profundezas funcionais do nosso corpo, deverá revelar as profundezas do funcionamento do nosso actual sistema social e político, pelo que teremos de estar à altura de avançar com soluções para a resolução das suas falhas. Não devemos alinhar pelo discurso fácil de responsabilizar unicamente a classe política pela actual situação que vivemos. Esta responsabilidade é partilhada com toda uma sociedade que durante demasiado tempo se refugiou no alheamento e no conforto da inactividade enquanto cidadãos. Com uma oposição frouxa (termo sabiamente evocado por Nogueira Leite) e de fraca qualidade, que nunca teve competência para estimular um maior dinamismo no Governo. Com uma grave crise internacional que muitos ainda teimam em negar. Mas mais do que apontar os culpados, importa apontar propostas e soluções, que urgem aparecer por parte daqueles que mais criticam, para reconquistar a confiança e dignidade que o País merece.

Nesta crise não há inocentes, poderemos eventualmente discutir o maior ou menor grau de culpabilidade de cada um! Mas quantos de nós estarão verdadeiramente empenhados em operar a necessária mudança???

1 comentário:

  1. Caro Alexandre Santos

    "Oposição frouxa", expressão aplicável à oposição PS no concelho de Viseu.

    Cita Cesare Pavese: “Apenas nas crises atingimos as nossas profundezas”
    Nas profundezas?
    Só de submarino alemão.

    Banda sonora para este post, caro Alexandre Santos:
    http://youtu.be/MCsYDZ2M04M

    Tempos melhores virão
    Abraço

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