Inventar uma nova civilização …



Mário Soares, exemplo de estadista, humanista e defensor dos direitos humanos, diz com a clarividência a que nos habituou que a crise económica e financeira “está a levar-nos à decadência e, porventura, à desintegração … ou se muda, e voltaremos a ser um farol de esperança e de progresso social, num mundo que é cada vez mais um só e que reclama uma nova ordem mundial; ou não mudamos, e a União Europeia entrará numa triste e irremediável decadência”.


Precisamos de facto de inventar um novo modelo de desenvolvimento que consiga travar esta especulativa situação financeira. Hoje, o bem estar não se traduz apenas no acesso aos recursos materiais, mas também na qualidade ambiental e cidadania inclusiva. Investir no potencial humano e aproveitar a totalidade de recursos disponíveis, tirando partido da criatividade das pessoas constituirá uma atitude de inteligência, fundamental ao desenvolvimento da Europa e do Mundo. É importante relembrar que, como diz Michelle Bachelet, Directora da nova entidade das Nações Unidas para a promoção da Igualdade de Género – ONU-Mulheres, "a força das mulheres, a sabedoria das mulheres e o seu potencial de invenção são o maior recurso inexplorado da humanidade”. Este potencial tem vindo a ser hoje mais explorado que ontem, mas pode efectivamente ainda ser mais explorado de forma a beneficiar o desenvolvimento humano de todas as pessoas.

Precisamos de alterar a cultura das organizações, promover a proximidade entre os locais de trabalho e a família, novos estilos de liderança que valorizem as pessoas nas suas diversidades e políticas de conciliação entre a vida pessoal, profissional e familiar.

Em Portugal a agenda de modernidade tem marca socialista e as mudanças estão em curso, derrubando estereótipos que têm impedido o desenvolvimento. São agendas difíceis, porque além das alterações legislativas e das medidas de política exigem mudanças de valores e comportamentos, porventura mais difíceis de concretizar a curto ou mesmo a médio prazo. Fizemos uma aposta decisiva na promoção da igualdade e no combate a todo o tipo de discriminações.

Em rigor, nunca as políticas de promoção da igualdade foram tão robustas como as que temos actualmente. Medidas positivas tiveram que ser introduzidas para combater desequilíbrios históricos (Lei da Paridade) que, se nada fizéssemos demorariam 80 anos a ser ultrapassados.

A sustentabilidade e a consolidação dessa política está em curso. Temos de impedir, nos mais diversos lugares da nossa intervenção cívica e política, que os avanços conquistados sofram retrocessos não desejados.

A crise financeira ou se combate também no campo da ética e dos valores ou não se combate de todo, dado que a aposta na competitividade exige a promoção de uma economia inclusiva em detrimento do capitalismo selvagem que teima em invadir-nos.

Precisamos de políticos experientes, credíveis e responsáveis que conciliem as medidas exigentes de que necessitamos com a salvaguarda da matriz ideológica ao nível do estado social e da defesa dos direitos fundamentais, indispensável à nossa sobrevivência social e humana.

Elza Pais, Socióloga, Secretária de Estado da Igualdade

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