EUROPA


O Velho Continente atravessa hoje uma crise muito profunda. Uma crise não só económica com o quase colapso da moeda única e com o sobre endividamento das famílias, das empresas e dos Estados, como também uma crise social de forte contestação ao modelo de governação e ainda de um forte apagamento da geopolítica mundial. A grave crise que hoje Portugal atravessa é também em parte resultado de uma crise maior da própria Europa seu parceiro dominante de produção, comércio e serviços. Não sendo esta uma desculpa que não o é, para a má governação de quem nos últimos anos tem tomado conta do poder em Portugal, é um facto por si só de grande relevância até estatística.

Como no filme Europa de Lars Von Trier, o comboio que nos transporta a todos, no Velho Continente, leva-nos a uma fuga contra o tempo. Um tempo já não de progresso mas de decadência. Na tese de Henrique Raposo, defendida no livro que foi editado à dias pela Guerra e Paz e com o título - Um Mundo sem Europeus – o autor reforça esta ideia da decadência do continente, reportando esse declínio bem para lá das questões materiais e económicas e colocando-as no patamar de natureza intelectual. Raposo identifica a crise da democracia europeia como a essência da verdadeira crise e do declínio da Europa. Os europeus de hoje estão hoje a trair a maior ideia europeia: a democracia liberal. Leia-se a este propósito a dominação selvagem que os poderes discricionários dos mercados e da economia hoje detêm sobre Estados ditos soberanos e sobre os seus representantes democraticamente eleitos. A subserviência política destes governos à doutrina dos mercados é assustadora e reflecte bem a crise da democracia política liberal europeia, a sua até á pouco pedra de toque. Um pouco como acontece no filme de Von Trier e por alguma analogia, há um espectro de decadência da própria natureza dos povos europeus, sejam eles alemães, franceses, ou mesmo portugueses.

Um facto cada vez mais presente é o de que a Europa já não tem qualquer centralidade na política mundial. A Europa pesa cada vez menos na demografia mundial e também no valor da sua economia global, com perdas relativas de grande significado para a China, a Indía ou o Brasil por exemplo. Uma Europa Envelhecida é por certo uma Europa decadente. Por analogia um Portugal envelhecido é por certo um Portugal decadente – somos hoje o segundo país mais envelhecido de todo o continente.

Alexandre Azevedo Pinto,

Economista

3 comentários:

  1. A Europa é um sonho que os romanos não acabaram; que Carlos Magno julgou iniciar; que Napoleão perdeu e que Hitler obliterou. As diferenças culturais, os desníveis sociais e económicos são abismais "de lés a lés" nos seus quatro pontos cardeais. Não é poesia é um facto: A Europa como unidade não existe. Questiona-se: ALGUMA VEZ EXISTIRÁ...?!

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  2. Há uma certa decadência na vida europeia. A Europa está sem ideias, sem desígnio e sem liderança. Não sabemos o que queremos. Na sociedade cultiva-se o facilitismo e o oportunismo. Isso tem saída e tem adeptos.

    A supremacia da ganância sobre a riqueza gerada pelo pulsar do quotidiano deixa sem esperança de vida milhões e milhões de pessoas. Daí um certo desencanto com a renovação de gerações. Renovar para quê? Para um beco sem saída? Para a inutilidade? Para a desgraça?

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  3. O caminho da Europa só não será a da total decadência se se conseguir uma inversão de políticas, que não se vislumbra. A crescente incapacidade dos governantes para assegurar o Estado social, conquista maior dos povos europeus, fazendo frente a interesses obscuros dos mercados, leva-nos a pensar o pior.

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