Para além da crise: a ética e os valores...



Continuo a citar hoje e sempre Mário Soares, exemplo de estadista, humanista, defensor dos direitos humanos, liberdades individuais e garantias. Diz de uma forma lúcida e incisiva, mais uma vez, relativamente à avassaladora crise económica e financeira que a Europa e, particularmente, Portugal atravessa "a dependência intolerável da política em relação à economia... e a perda de valores éticos, conduziu-nos à crise global, que paralisa a União Europeia que está a levar-nos à decadência e, porventura, à desintegração... ou se muda, e voltaremos a ser um farol de esperança e de progresso social, num mundo que é cada vez mais um só e que reclama uma nova ordem mundial; ou não mudamos, e a União Europeia entrará numa triste e irremediável decadência".



É mesmo isso, parece paradoxal, mas, ou temos, neste clima de indefinição e incerteza em que nos encontramos, a ousadia de mudar de paradigma e colocar as pessoas no centro das políticas, aproveitando o potencial humano e de inovação de cada uma, ou as conquistas feitas ao nível dos direitos humanos, da igualdade e na afirmação de uma sociedade inclusiva poderão ser fortemente prejudicadas.



Em Portugal toda a agenda de modernidade, no sentido da igualdade de género, cidadania e não discriminação têm marca socialista. Trata-se de uma agenda iniciada, mas ainda não encerrada. Um percurso percorrido que muito nos orgulha e muito contribuiu para derrubar preconceitos de um muro que ainda continua demasiadamente erguido.


As desigualdades que persistem, pese embora todos os avanços conquistados, continuam a ser um obstáculo à paz social e ao desenvolvimento.


Em Portugal têm sido feitas apostas decisivas na promoção de legislação inovadora, coerente, de respeito pelos Direitos Humanos e contra o sofrimento humano. Em rigor, nunca o nosso quadro jurídico e as políticas de promoção da igualdade e da não discriminação foram tão robustas como as que temos actualmente, sobretudo fruto dos avanços destes últimos 6 anos.



Saliento o reconhecimento internacional dos avanços efectuados em Portugal nesta área. O Global Gender Gap Report 2010 (World Economic Forum), relatório que estabelece uma forte relação entre igualdade de género, desenvolvimento social e político e competitividade económica, coloca Portugal no 32º lugar num total de 134 países. Subiu 14 posições em relação ao ano anterior.


Temos de impedir, nos mais diversos lugares da nossa intervenção política e cívica, que os avanços conquistados sofram retrocessos não desejados.


A necessidade de encontrar um novo modelo, uma nova forma de fazer as coisas é uma evidência. Precisamos de novas regras que dêem visibilidade ao trabalho dos homens e das mulheres. Precisamos de políticos experientes, credíveis e responsáveis para fazer face à grave situação em que nos encontramos, políticos que defendam e promovam de forma intransigente a igualdade como factor de competitividade.


Esta crise económica e financeira é sem dúvida uma crise de valores e vai obrigar-nos a mudar de paradigma e a inventar uma nova forma de viver. Para que a crise não acarrete mais desigualdades é urgente criar um modelo de produção mais sóbrio no que diz respeito aos recursos; reformas económicas associadas a uma nova redistribuição da riqueza; políticas de proximidade, reforçando o diálogo entre patronato e trabalhadores; investimentos reforçados em políticas de conciliação entre a vida profissional, familiar e pessoal para mulheres e para homens; uma nova atitude face ao desperdício e, sobretudo, face ao desperdício de recursos humanos.


O momento é difícil, mas os portugueses e as portuguesas saberão escolher os políticos - homens e mulheres - responsáveis, experientes, credíveis que nos ajudarão a trilhar o percurso difícil que temos de fazer, conciliando medidas exigentes de contenção com a salvaguarda dos valores humanos fundamentais.


Elza Pais, socióloga, Secretária de Estado da Igualdade

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